Zine Culture, o espírito Do It Yourself na prática

Desde sua fase embrionária o punk contou com uma grande ajuda de outro fenômeno contra-cultural: os fanzines, publicações quase sempre feitas em fotocópias, com tiragens mínimas, periodicidade irregular (quando a possuem) e fora de qualquer padrão jornalístico. Os fanzines foram fundamentais como espaço de divulgação para as bandas punk, assim como para o cenário underground que se fortaleceu após a “explosão” punk/new wave de 1976-77.

Há quem defenda que o termo “punk” com o significado de um estilo de música, bem como de se vestir e comportar, tenha se originado exatamente em uma dessas publicações, um fanzine publicado em 1975, em New York, chamado… Punk! Mas, claro, há controvérsias…

Mãos à obra

Uma das maiores contribuições dos fanzines para o punk foi a apologia quase sempre explícita, mas também implícita, ao espírito “do it yourself”, ou “faça você mesmo”. Não é exagero nem presunção afirmar que, sem esse elemento, o punk não existiria.

Nenhuma gravadora (selo) quer lançar sua banda? Foda-se, grave por sua conta, como for possível, mesmo que seja na garagem de sua casa. E lance você mesmo se nenhuma gravadora quiser bancar. Melhor ainda: monte seu próprio selo…

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A mídia não fala das bandas que você mais curte? Faça sua própria revista e fale à vontade do quê e como quiser, mesmo que essa “revista” seja apenas algumas folhas “xerocadas” e dobradas. 

Enfim, faça você mesmo. Esse é o espírito da “zine culture”, ou da cultura zineira e do próprio punk.

História antiga

Mas não foram os punks que inventaram os fanzines. Na verdade, eles existiam muito tempo antes do próprio rock and roll. Em sua dissertação de mestrado, que trata sobre os fanzines punk brasileiros, Marco Antonio Milani lembra que “o uso do termo ‘fanzine’ teve início na década de 1930, nos Estados Unidos, para denominar revistas produzidas por aficionados por ficção científica, gênero literário que ainda não encontrava espaço nas publicações do circuito comercial. A palavra vem da contração das palavras de língua inglesa fanatic – fã – e magazine – revista”.

Possivelmente, o primeiro fanzine foi o The Comet, feito por Ray A. Palmer e lançado em 1930. Mas há outros candidatos como o Cosmic Stories. Produzido por um cara chamado Jerry Siegel que, ao ter suas histórias em quadrinhos recusadas pelas grandes revistas da época, resolveu publicá-las por sua conta, ainda que de maneira precária. A primeira edição teria saído em 1929. Alguns anos depois, Siegel criaria (junto com Joe Shuster) um personagem chamado Superman, o que dispensa comentários.

Já Teal Triggs,  professora de Designer Gráfico da University of The Arts London e grande estudiosa do assunto, defende que a origem dos fanzines é derivada de duas vias distintas, embora tenham afinidades entre si.

Uma dessas inclui as formas, as técnicas e a atitude inovadora de “movimentos” e escolas artísticas como o Dadaísmo, o Surrealismo e o Fluxus (veja vídeos sobre no final do texto). A outra baseia-se no idealismo e ativismo político da imprensa independente e underground dos anos 50, na contracultura dos anos 60 e no punk da metade dos anos 70.

Nico Ordway, um dos criadores do fanzine Search & Destroy, cita as publicações dadaístas como os primeiros “proto-zines”, por terem sido “produzidas para dar prazer a seus criadores e provocar os leitores ignorando ou satirizando os cânones e padrões do Jornalismo”.

Nos fanzines punk, é bem fácil identificar a influência do Dadaísmo, especialmente no uso de letras de diferentes tipos recortadas e montadas para formar títulos, assim como todo tipo de colagem. “Técnica” muito usada também pelas primeiras bandas punk em capas de discos, o que contribuiu para consolidar esses grafismos como parte da identidade punk.

O termo “fanzine”, entretanto, teria sido criado por Louis Russel Chauvenet, no Detours, outra publicação dedicada à ficção científica. Até então, sem saber exatamente como chamar aqueles artefatos, muitos feitos à mão, um por um, a imprensa comum os denominava “fanmags”. O termo não agradava Chauvenet. “Prefiro fanzine”, escreveu. Simples assim. O ano era 1940.

Poder feminino

Ainda na década de 40, surgiram publicações que podem ser classificadas como fanzines dedicadas a temas que recebiam pouco (ou nenhum) espaço na mídia tradicional. Entre os muitos nomes que merecem lugar de destaque, está Edithe Eyde, que lançou, em 1947, o Vice Versa, considerado a primeira publicação dedicada exclusivamente ao universo lésbico. Edithe, também conhecida como Tigrina, editou ainda o Hymn To Satan, com foco em temas de ocultismo.

Nessa década também surgiram os primeiros fanzines dedicados a ídolos específicos, como o The T-Jacket Journal, de Atlanta, EUA, feito por fãs do então jovem Frank Sinatra, em 1945. No entanto, a maioria dos fanzines ainda eram dedicados à ficção cientifica, em forma de críticas, contos ou quadrinhos.

A revolução da cópia fácil

Nas décadas de 1950 e 1960, os fanzines ganharam um grande impulso com o crescimento da contra-cultura, a popularização do rock’n’roll e o desenvolvimento da imprensa independente. Mais do que isso, passaram a ter também conteúdo político e não apenas “artístico”, até mesmo devido ao contexto da época.

A primeira fotocopiadora Xerox a ser distribuída em larga escala, revolução tecnológica a serviço da subversão

Mas, sem dúvida, o grande acontecimento – ainda na década de 1960 – que elevaria a produção de fanzines ao próximo nível foi o lançamento das primeiras fotocopiadoras. A invenção se tornou tão popular que ainda hoje poucos falam “tirar uma fotocópia”, mas sim “um xerox”, nome da empresa que as fabricou. Nesse link tem a história toda. O fato é que essas máquinas mágicas facilitaram, e muito, o processo de se manufaturar um fanzine, além de baratear o custo das cópias.

Páginas barulhentas

A proliferação de fanzines dedicados exclusivamente a estilos musicais e ou artistas específicos alargaram horizontes para a cultura zineira. As publicações dos anos 60 sobre música dedicavam-se a gêneros como rock, folk, jazz, country, pop, blues, psicodelia e r&b, bem como a artistas famosos. Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan eram os mais visados, por motivos óbvios.

A linguagem gráfica que caracterizaria a maioria dos zines nas décadas seguintes firmou-se com os fanzines musicais. Entre as primeiras publicações desse tipo estão o The Rambler (1957-58), dedicado à folk music; e o Jazz Fan (1958) que, apesar do nome, falava também do então nascente fenômeno chamado rock’n’roll.

Mas havia as que misturavam tudo (arte, política e cena musical), como o Caravan (1957), editado por Lee Hoffman, um dos nomes mais importantes para a cultura zineira. Hoffman publicou dezenas de fanzines. O primeiro deles, chamado Quandry, em agosto de 1950, com histórias de ficção científica datilografadas, poemas e desenhos.

Os fanzines feitos por Hoffman sempre tiveram nomes peculiares e fora do convencional como Bad Day at Lime RockKeep Your Cottonpickin’ Hands Off My Fanzine ou Ye Boiffion Boy Birdwatchers’ Bugle-Blast. Ela morreu em fevereiro de 2007, aos 75 anos.

hoffman and tucker
Lee Hoofman (à esq.), figura fundamental para a cultura zineira

A (anti) imprensa roqueira

A década de 1960, em particular, foi muito produtiva em relação aos fanzines, assim como outras formas de arte e comunicação alternativa. Certamente, um reflexo da revolução comportamental da juventude e da multiplicação de ídolos ligados ao universo do rock and roll, em plena expansão. 

Entre as principais publicações do gênero naqueles tempos, poucas foram tão bem sucedidas e influentes quanto o Crawdaddy!, zine norte-americano de 1966, assinado por Paul Williams, de conteúdo quase inteiramente voltado para o rock’n’roll. O Crawdaddy! durou cerca de dois anos (voltou a ser publicado esporadicamente entre 1993 e 2003) e revolucionou o que viria a ser o jornalismo musical das décadas seguintes, tanto em termos gráficos como de linguagem.

A capa do número 1 é apenas uma folha com o título datilografado e uma mensagem, também datilografada. Na segunda edição, nem isso. A capa é escrita à mão! Apenas na quarta edição, Paul Williams usaria uma foto (Bob Dylan) e a partir daí, “profissionalizou” o fanzine, hoje reconhecido como pioneiro no gênero.

Igualmente importante foi o Mojo Navigator, editado por Greg Shawn, que era um fanático colecionador de discos. Credita-se a ele a popularização do termo “fanzine” como sinônimo de publicação voltada à música. O mesmo Shawn ainda publicaria  o Who Put the Bomp!, que durou de 1970 a 1979. Em 1976, mudou-se para Londres, onde foi responsável pelo lançamento de um dos primeiros fanzines punk, o London’s Burning.

A verdade é que já a partir de 1968/69 inúmeras publicações desse tipo surgiram pelo mundo todo. Claro que EUA e Reino Unido concentraram a maioria. Mas em vários países europeus como Holanda, França, Portugal, Alemanha, Bélgica e toda a Escandinávia, assim como na Oceania há registros de fanzines direcionados ao público roqueiro nesse período.

Rock nos trópicos

No Brasil, os fanzines de ficção científica e HQ começaram a surgir na metade dos anos 60, enquanto os musicais apenas perto do final da década seguinte. É bom lembrar que havia censura no país. Por outro lado, a imprensa alternativa tornou-se um pilar da resistência contra a ditadura, não apenas pelas publicações de teor político.

Um exemplo foi a revista Rock, na verdade, Rock, a História e a Glória, que teve a primeira edição publicada em novembro de 1974 e conseguiu sobreviver por quase dois anos, ou 19 edições. Quando o regime militar começou a ceder, por volta de 1979/80, começaram a pipocar fanzines nos grandes centros urbanos e a cultura zineira se estabeleceu por aqui.
A relação entre fanzines e punk rock fica para o próximo capítulo… ops! próximo post, eu quis dizer.

Rock, a História e a Glória, revista alternativa sobre rock pioneira no Brasil

5 comentários sobre “Zine Culture, o espírito Do It Yourself na prática

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