The Pop Group: um grupo nada pop

Lá por 1980 ou 81, comprei um compacto do Pop Group, na extinta e saudosa Wop Bop Discos. Não conhecia e nem jamais tinha ouvido falar deles. O que me motivou a comprar o artefato foi a capa, que tinha a letra de We’re All Prostitutes, a principal faixa do single (em tradução livre abaixo).

Somos todos prostitutas
Todos temos um preço
E você também vai aprender
A viver essa mentira

Agressão, competição, ambição
Fascismo consumista

O capitalismo é a mais bárbara de todas as religiões
As lojas de departamentos não nossas novas catedrais
E nossos carros, mártires de nossas causas

Somos todos prostitutas
Nossos filhos estarão contra contra nós
Porque seremos os acusados

Seremos aqueles que eles culparão
E eles nos darão novos nomes
Nós seremos hipócritas, hipócritas, hipócritas

Me ganhou na hora. Desde o instante em que coloquei a agulha naquela (hoje) preciosidade, me tornei fã dos caras, apesar do estranhamento com aquele som maluco, que não se parecia com nada que eu já tivesse ouvido (algo que não mudou muito até hoje). Na verdade, não entendi porra nenhuma nas primeiras audições, o que me fez ouvir mais e mais até acabar viciado, obviamente.

Funk-Soul-Jazz-Reggae-Punk

O Pop Group é de Bristol, Inglaterra, cidade que desde a década de 60 tem uma cena underground bem forte. No entanto, com uma diferença em relação a outros centros urbanos: a influência de sons mais dançantes produzidos por artistas afro-americanos e caribenhos. O que rolava nas festas, bailes e garagens era soul, funk, jazz, reggae, calipso e por aí vai. O rock pesado estava presente, claro, mas ao contrário do que acontecia em Londres ou Manchester, por exemplo, não estava em primeiro plano.

The+Pop+Group+thepopgroup

Nos anos 70, em algumas áreas da cidade praticamente não havia brancos. E era os “bailes” desses bairros-quase-guetos de Bristol que os amigos Mark Stewart, Bruce Smith e Simon Underwood gostavam de frequentar. Com idades na casa dos 14/15 anos e fãs de reggae, logo descobriram também o soul, a funk music e o (free) jazz.

Então, em 1976, algo diferente começou a acontecer por quase toda a Inglaterra (uma história já bem conhecida neste blog) e logo Bristol seria “contaminada”. O vírus da rebelião que se espalhava pelo país chegaria por lá em apresentações do Sex Pistols e do The Clash. Seguramente, além dos futuros integrantes do Pop Group, na plateia desses shows estavam inúmeros outros moleques que fundariam grupos punks ou “new wave”.

Após o “contágio”, o trio passou a alimentar a ideia de ter uma banda que conseguisse somar tudo o que gostavam musicalmente com a atitude “do it yourself” do punk e ainda passar uma mensagem política subversiva, confrontadora e libertária. O alicerce estava armado e depois de considerarem nomear o grupo como The Wild Boys, resolveram que seriam o Pop Group.

Improviso e inovação

Stewart tornou-se o vocalista, com Smith na bateria e Underwood no baixo. Para completar a formação, os guitarristas John Waddington e Gareth Sager se juntaram a eles. Apesar de não serem analfabetos musicais, nenhum deles era músico habilidoso. O que valia mesmo era a vontade e a atitude. Improvisar foi a solução natural.

O que saiu desse caldo foi um som bem pouco convencional, décadas à frente de seu tempo. Talvez tenha sido a primeira vez que um grupo conseguiu produzir um híbrido entre o funk, o jazz e o punk ao mesmo tempo difícil de ser encaixado em um ou outro desses rótulos.

pop group nmeMas o Pop Group só começou a tomar corpo e ganhar reputação em 1978, ano em que muita gente ainda se perguntava o que viria depois do avassalador furacão punk do ano anterior. As performances incendiárias, marcadas por improvisos e um misto da agressividade com o agito de festas dançantes e discursos políticos logo chamaram a atenção da imprensa alternativa. Em setembro de 1978, sem mesmo terem um vinil sequer no mercado, o Pop Group (ou melhor, Mark Stewart) era capa de uma das principais publicações musicais da época, o New Musical Express.

Na verdade, eles eram tudo o que a mídia queria: uma resposta para a questão do que viria depois do punk. Faziam um som que agradava jornalistas e críticos por sair do estereótipo punk e rock; e ainda eram ótimos nas entrevistas, nas quais demonstravam algum conhecimento sobre política, sociedade e música.

As letras, minimalistas, estavam recheadas de referências à literatura beat e ideologias políticas radicais, porém, sem o panfletarismo da maioria dos grupos punks que optavam por falar de política. A verdade é que as redações dos periódicos musicais estavam cheia de jornalistas e críticos fãs de Miles Davies, Captain Beefheart ou David Bowie. E muitos deles odiavam o “primitivismo” ou “analfabetismo musical” punk.

Mais do que isso o Pop Group procurava novos caminhos em tudo o que se propunha a fazer. Um prato cheio para a mídia, sempre faminta por novidades e ela mesmo sem saber para onde ir após o punk, que colocou no mercado milhares um número incalculável de grupos que antes não tinham o mínimo espaço.

mark-stewart-gareth-sager-pop-group-1980-billboard-650

A capa do NME aumentou bastante a popularidade do Pop Group, que logo assinou com a Radar Records, selo que abrigou outros ícones do pós-punk, como o The Soft Boys e o Tanz Der Youth, além de ter lançado o Pere Ubu na Inglaterra.

A estreia em vinil foi com o single She’s Beyond Good and Evil, em março de 1979. Dois meses depois chegava às lojas o álbum Y. Ambos bastante elogiados pela crítica, mas pouco tocados pelas rádios e quase totalmente incompreendidos pelo público. O resultado é que as vendas foram bem fracas e a Radar Records, que pertencia à poderosa WEA, resolveu acabar com a parceria.

Y não é um disco de audição fácil. Em alguns momentos soa como um funk dissonante, em outros dá a impressão de que estão em uma jam session, com as devidas passagens experimentais. É dançante, brutal e primitivo. Um som único bem pouco comercializável até hoje. Sem dúvidas a voz marcante de Mark Stewart, que em alguns momentos parece um MC bebaço discursando com algum ritmo e subitamente solta um grito, é o que mais chama a atenção. É um álbum que tem uma espécie de aura anárquica, desafiante até. Apesar de ser bem homogêneo, a faixa We Are Time, talvez seja a mais “fácil” de ouvir com seus hipnotizantes seis minutos e meio.

Depois de romper com a Radar, o Pop Group foi para a Rough Trade. Ainda em 1979, lançaram o single We’re All Prostitutes e pouco depois, em março de 1980, o segundo álbum How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder? (Por quanto tempo ainda vamos tolerar assassinatos em massa?).

Com uma produção mais apurada, o disco tinha a intenção de ser mais digerível, mas ainda bem pouco comercial. É meu preferido e, apesar de ter a fama de ser mais palatável, acho que é mais pesado é melhor resolvido. Nesse álbum o baixo ficou por conta de Dan Catsis, já que Underwood havia deixado o grupo. Além da obra-prima We’re All Prostitutes, destacam-se faixas como Forces of Oppression, Rob a Bank, Blind Faith e Justice.

pop group stewartMais uma vez o trabalho foi bem recebido pela crítica musical, mas não conseguiu boas vendas. Difícil as rádios aceitarem por no ar algo como “somos todos prostitutas”. Mas o pior é que algumas disputas internas emergiram e tornaram-se inconciliáveis. Pouco depois do lançamento do álbum We Are Time, uma coletânea com originais de demo tapes, gravações ao vivo e faixas anteriormente descartadas, o Pop Group chegava ao fim.

Apesar do pouco tempo de atividade e do (óbvio) fracasso comercial, a obra do grupo teve um grande impacto no cenário underground europeu e norte-americano. São muitos os artistas que reconhecem o Pop Group como referência, entre eles o Birthday Party e o Minutemen. Sem dúvida, um marco no “ponto de mutação” entre o punk e o pós-punk, ou seja, quase tudo o que veio após 1977.

depois de ficar praticamente esquecido por décadas, em 2010, após ver o retorno de 11 entre cada 10 bandas que haviam acabado nos anos 70 e 80, Mark Stewart resolveu ressuscitar o Pop Group apenas para apresentações ao vivo (suspeito que há algum dinheiro por trás disso, mas…). No entanto, em 2014, lançaram Cabinet of Curiosites, mais uma coletânea no estilo de We Are Time.  The_Pop_Group_-_We_Are_All_Prostitutes_album.jpeg

Em 2015, enfim, o Pop Group retornou ao estúdio e produziu um novo álbum, Citizen Zombie. O trabalho soa exatamente como um Pop Group atualizado. Não chega a ser datado, talvez um pouco repetitivo, mas apenas uma versão atualizada. Um ano depois, saía o quarto álbum, Honeymoon On Mars, um pouco mais experimental, algo que está no DNA do grupo, por isso, mais legalzinho. Mas, como tudo o que eles fazem, é preciso um tempo para digerir, e pode não ser muito curto.

Como os álbuns de estúdio são relativamente fáceis de encontrar na Web, subi uma coletânea de gravações ao vivo, chamada Idealists In Distress from Bristol, que considero bem representativa da barulheira dançante do pop Group. São dois CDs que podem ser baixados aqui (1) e aqui (2)

Curiosidades

  • Após o fim do grupo, Mark Stewart formou o Mark Stewart and The Maffia, com um som próximo ao do Pop Group. Colaborou também com o The New Age Steppers, um combo do produtor de reggae Adrian Sherwood, que contou ainda com participação de Ari Up (ex-Slits) e os ex-parceiros de Pop Group John Waddington e Bruce Smith. Os dois, aliás, montaram o Rip Rig and Panic, grupo que poderia ser grosseiramente descrito como “free-jazz-punk-funk-noise”. Simon Wonderwood fez parte do Pigbag, que também caminhava pelas mesmas trilhas, porém, com um pouco mais de metais.
  • No primeiro single do Discharge, na contra-capa aparece uma figura que foi usada como símbolo da banda. Poucos sabiam, mas tratava-se da foto de Mark Stewart, tirada de um anúncio. O som de ambos os grupos é bem diferente um do outro, mas a estética “do it yourself” e o anarquismo estão claros no DNA dos dois.

 

https://open.spotify.com/embed/album/02sdkymnHj12svxkRg71In

https://open.spotify.com/embed/album/11UmHdyz42ZIF8IADzIqQ0

 

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