Entrevista com Redson (Cólera)

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O Cólera é uma das bandas pioneiras do punk brasileiro, mas diferentemente da maioria dos grupos que surgiu na década de 70, nunca deixou de existir. Das bandas brazucas antigas, o Cólera é a única que nunca “voltou” ou “ressuscitou”, pois de um jeito ou de outro manteve-se em atividade desde sua criação, há 40 anos, mais ou menos.

A importância do Cólera para o punk tupiniquim está muito além do som. O Cólera sempre foi uma das bandas mais ativas do cenário e deu muita força para outros grupos existirem. Foi na aparelhagem do Cólera que o Anarcoólatras e outros grupos aprenderam os primeiros acordes. Na garagem dos Pozzi, no Capão Redondo, nasceu o Olho Seco. Lá também o Ratos de Porão gravou sua primeira demo tape.

A disposição de Redson ajudou a abrir portas de muitos lugares para shows punks, inclusive em outras cidades. O Cólera foi a primeira banda punk brasileira a tocar no exterior (excluindo o Mutantes, talvez tenha sido o primeiro grupo de rock brasileiro a fazer shows na Europa). Para facilitar o lançamento dos discos da banda, Redson foi um dos fundadores do Ataque Frontal, selo fundamental para o punk brasileiro.

 

Em quatro décadas, o Cólera lançou oito álbuns de estúdio, além de três outros gravados ao vivo e mais dois EP. O legado da banda é imensurável, tanto para o punk como para a cultura underground nacional. Esse verdadeiro tesouro está disponível para stream e download no Bandcamp. É diversão pura… e faz pensar!

Infelizmente, a trajetória do Cólera ficou marcada pelo falecimento do seu grande mentor, Redson, “em setembro” (por ironia, nome de uma das músicas do grupo) de 2011. Uns dois anos antes, o Factor Zero fez uma entrevista com o guitarrista e vocalista dessa verdadeira instituição do punk mundial. Vale o remember.

FZ – Antes do Cólera, o que vc fazia? Como e quando começou a tocar guitarra?

Redson – Me interessei em tocar guitarra com 11 anos. Montei a primeira banda com 12, a segunda e a terceira com 14 e a quarta, com quinze. Com 17 anos montei minha quinta banda, o Cólera, ou seja, em outubro de 1979. Antes disso, eu já frequentava o point de roqueiros que era a estação São Bento do metrô, em SP. Durante três anos eu ia com meu violão Rei tocar pra galera durante três, quatro horas seguidas. Rolava desde The Doors, AC/DC, até Ramones, Ultravox. Com isso, fui convidado a tocar guitarra numa banda de punk rock de Pirituba, que se chamava Tropa Maldita.

FZ – Como conheceu o punk rock?
Redson – Com o primeiro álbum dos Pistols, mas não foi o que me deu a referência para tocar punk rock. Foi mesmo o The Clash, com seu primeiro LP. Daí veio Stranglers, UK Subs, Stiff …

FZ – Quando e como resolveu formar o Cólera? Por que Cólera?
Redson – Em outubro de 79, conheci o Helinho na Estação São Bento, estávamos munidos de violões. Lá mesmo, depois de fazer um som juntos, decidimos montar uma banda. O nome veio de uma reportagem no jornal: “Cólera mata milhares de porcos no sul do país.”

FZ – Quem eram os primeiros integrantes? Qual, ou quais foram as primeiras músicas?
Redson – Eu no baixo e vocal, Pierre na bateria e Helinho na guitarra.

FZ – A banda teve um vocalista, o Kino, por que ele saiu?
Redson – Ele era brother meu de rolê e, antes do Cólera, estávamos cogitando fazer um som juntos. Em janeiro de 1980, ele entrou como backing vocal. Depois que o Val entrou tocando baixo e eu fui pra guitarra, o Kino ficou mais três meses com a banda e teve que mudar de SP, daí perdemos contato até hoje.

FZ – E o Val? Quando entrou na banda?
Redson – Em maio de 1980.

FZ – Quais eram as maiores dificuldades no começo?
Redson – Equipamento, pois não haviam opções, era caro e muito ruim. As tretas eram uma barreira frequente e o lance de não ter onde tocar, gravar, etc… Hoje temos aqui em Sampa um circuito underground espetacular que é visitado por bandas da Europa, Japão, América Latina e América do Norte.

FZ – Onde e como o Cólera se apresentou pela primeira vez? Como foi?
Redson – Em 12 de dezembro de 1979 na escola municipal CETAL (hoje é ETAL). Foi ao lado de Restos de Nada e Condutores de Cadáver. Tocamos as 11 músicas que fizemos durante os dois primeiros meses da banda . A galera curtiu e pediu mais… daí, sem mais sons pra tocar, fizemos um som ali, na hora, um punk rock repente, chamado Desratear.

FZ – Depois de tanto tempo, como vc avalia as primeiras gravações do Cólera (Grito e Tente Mudar o Manhã)?
Redson – Fudidas, em ambos os sentidos!

FZ – No LP Pela Paz em Todo Mundo o Cólera adotou uma postura mais politizada. Parece que houve uma espécie de “guinada” pacifista nas mensagens. Como foi esse processo?
Redson – O pacifismo foi uma veia que eu tinha desde minhas primeiras bandas de rock, antes do Cólera. Também músicas como Viralatas, Zero Zero… Com as músicas que foram surgindo nos anos anteriores, era inevitável que fosse um álbum temático e que tudo seria com uma nova linguagem; as cores, pois os punks só usavam preto e branco…he he he, os arranjos, letras e a mensagem central: “Pela Paz em Todo Mundo”.

FZ – Como vc vê hoje a explosão do punk no Brasil no início dos anos 80? E a que atribui a decadência vivida por esse “movimento” a partir de 84/85?
Redson – Bem não vejo uma decadência mas sim altos e baixos com uma recente e positiva transformação. Naquela época, tivemos um ímpeto de fazer, de acreditar. Éramos basicamente um pouco mais de um mil. A situação e estilo de vida da época eram de precariedade, ditadura militar e desinformação. Atualmente, a parada não existe somente em Sampa ou Rio, mas é no país todo. Existem centenas de pessoas na cena sem saber o que fazem e porque fazem parte daquilo, mas por outro lado, há uma quantidade significativa e crescente de pessoas acreditando no D.I.Y. Viajo muito pelo Brasil em tours e posso afirmar que o que vejo é gente colocando a mão na massa, tendo resultado e crescendo sua ideia. Hoje, com internet, circuito para shows e tudo o que dispomos de recursos está rolando uma febre de lançamento de CDs produzidos pelas próprias bandas. Numa época em que venda de CD está em baixa, a cena punk rock continua realizando suas produções sem parar. Acho que cada época tem seu valor e significado.

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FZ – O que vc lembra da primeira tour européia? Vc ainda tem contato com o pessoal que recebeu o Cólera por lá? Como aconteceu o convite? Vcs ganharam dinheiro lá?
Redson – Não ganhamos cash, perdemos. Nas duas tours mais recentes, 2004 e 2008, encontramos muitos amigos de 1987 na Bélgica, Alemanha e Áustria. O convite: como os LPs do Cólera vendiam muito bem na Europa, um fã da Bélgica propôs pra banda ir pra lá e fazer alguns shows. Daí emprestamos dinheiro pra comprar passagens e pagar as taxas que eram bem altas e tinha um tal de empréstimo compulsório do governo. Conseguimos resolver e fomos com 18 shows marcados. Cinco meses depois voltamos com um total de 56 shows realizados em 10 países da Europa.

FZ – Como e porque se deu a ruptura da banda com a Ataque Frontal? Vc tem alguma mágoa com Renato Filho?
Redson – Não. Eu quis sair. Não falávamos a mesma língua.

FZ – E as hostilidades do RDP? Como vc encarou isso? Chegaram a ter alguma treta física?
Redson – Faz anos que tudo isso está resolvido. Ontem mesmo tocamos juntos em Sampa, no Combat Rock, com Clemente, Mingau e Ari, recebemos os convidados, João Gordo, Jão, Sandra (Mercenárias), Daniel Beleza… Sem sequelas…

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FZ – Vc já fez diversos projetos paralelos pode falar deles?
Redson – O AXO foi um projeto em que eu tocava tudo sozinho. Montei em 1982 e fiz uma demo nos Estudios Vermelhos. O Rosa Luxemburgo foi um projeto com influências de Ultravox, Depeche Mode, com pegadas de funk antigo e letras em português. Durou de 1984 até 1992. Eu era o vocal.O Bike durou um ano (1990) e eu tocava bateria neste projeto que tocava sons pra andar de bike.

FZ – Hoje vc considera que o Cólera é mais reconhecido que antes. Por que?
Redson – Melhoramos nossa forma de mostrar nossa idéias.

FZ – Quantas tours já fizeram no exterior?
Redson – Três: 1987, 2004 e 2008.

FZ – Como vc compara o público punk de hoje e dos anos 70/80?
Redson – Hoje é mais amplo e as pessoas são bem sedentas por música ao vivo cantada em português e com conteúdo. Antes, dava-se preferência pro som de fita mais do que pras bandas.

FZ – Qual é o disco do Cólera que mais vendeu? E qual você considera o melhor?
Redson – Pela Paz. Nenhum é melhor, é como filho, cada um é cada um. Claro que, atualmente, estou mais envolvido no próximo…. he he he he

FZ – Quais são os próximos projetos?
Redson – CD de inéditas: ACORDE ACORDE ACORDE e o DVD CÓLERA 30 ANOS SEM PARAR!

FZ – Fique à vontade para tecer quaisquer comentários adicionais.
Redson – Deixar um salve pra todos que fazem alguma coisa legal, um som, zine, 
desenho….muita saúde pra todos.

FZ – Obrigado!

COLERA
O Cólera 2018, com Wendel, Fábio, Pierre e Val

 

 

 

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