Entrevista com Ariel (Restos de Nada)

Restos de Nada foi um dos grupos pioneiros do punk rock brasileiro  referência para os punks das periferias paulistanas dos anos 70. Ainda hoje ecoa na minha cabeça a galera completando a frase “Temos de derrubar…. a classe dominante!/Temos de liquidar…. a classe dominante!” ou o refrão de Desequilíbrio (música dos Condutores, mas que ficou famosa com eles), outro clássico do punk nacional, assim como Ninguém é meu igual e Deixem-me viver, com seus versos de puro existencialismo: “Tenho medo de olhar nas latas de lixo / Pois dentro de uma delas eu posso me encontrar”.

Há 10 anos, o FZ fez essa entrevista com o Ariel, vocalista e fundador do Restos de Nada e militante juramentado do punk brazuca. Mesmo depois de tanto tempo, o papo continua atual.

FZ – É verdade que quando começaram ainda não sabiam o que era punk rock, mesmo fazendo um som que poderia ser rotulado como tal?

Ariel – É verdade, pois quando começou a rolar uma cena de rock na Vila Carolina, ainda não havia chegado o punk rock. Mas por outro lado o que nos influenciou foi o rock de bandas como Alice Cooper, MC5, The Stooges e New York Dolls, que já eram referência do que viria a seguir e nós por aqui também começamos a fazer um som influenciado por essa safra maldita do rock’n’roll. Portanto éramos punks e não sabíamos, mas desconfiávamos que o que viria a seguir seria nessa mesma linhagem.

FZ – Por que o nome? Quem criou?

Ariel – O nome veio de uma música do Clemente que tinha esse título. Antes do Restos de Nada, ele e o Douglas já tinham se iniciado no rock’n’roll com uma banda chamada Organus, que tinha essa música em seu repertório.

FZ – As letras do RDN são bem politizadas, com uma tendência ao socialismo. A banda era comunista? Tinham ligação com algum partido ou associação política?

Ariel – Bem, no começo acho que as letras tendiam mais ao existencialismo, depois da saída do Clemente, em 1979, eu, o Douglas e a Irene, que havia assumido o baixo, entramos numa organização trotskista, chamada OSI, que lutava pela IV Internacional dos Trabalhadores e conhecemos a história das revoluções socialistas. Na época militávamos pela reconstrução da UNE e UMES, entidades estudantis, e dentro das fábricas por sindicatos livres. Levávamos todo esse conhecimento revolucionário para as ruas, pois vivíamos em uma ditadura militar que proibia qualquer manifestação subversiva e o Movimento Punk estava se aproximando dessas tendências revolucionárias, então chegamos a fazer muita coisa, interagindo nessas duas frentes. A banda serviu pra difundir essa mensagem de luta e rebeldia. Após isso, abandonamos essa forma de luta socialista e depois de muitas decepções adotamos um pensamento libertário.

FZ – Naquela época não havia muitos lugares para uma banda de punk (ou mesmo de rock) tocar. Como foram os primeiros shows?

Ariel – O primeiro show punk em São Paulo, rolou em um porão de uma padaria abandonada na Zona Leste de São Paulo, onde tocaram Restos de Nada e AI-5. Depois disso rolou um som na Zona Norte, num salão de rock chamado Construção e em Sociedades Amigos de Bairro. Chegamos a fazer shows até em cima de caminhões, com “gatos” puxados de postes. Em praças públicas, com palcos montados com restos de madeiras. Foi muito foda fazer som punk naquela época. Tínhamos que carregar aparelhagem e instrumentos em ônibus, a polícia chegava e acabava com o som e por aí vai…

FZ – Vocês sofreram com a repressão política? Afinal, o Brasil vivia ainda sob a ditadura militar….

Ariel – Sofremos muito, pois não conseguíamos mostrar nossa identidade cultural sem sermos molestados, não podíamos andar de visual que éramos parados e humilhados. Nossas letras e músicas eram censuradas. Corríamos o risco de desaparecer nos porões da ditadura, o que quase aconteceu. Éramos punks e militantes revolucionários, tínhamos muito material subversivo em mãos, portanto um perigo à sociedade.

FZ – A letra de Direito à Preguiça é inspirada no livro homônimo de Paul Lafargne? Ou é mera coincidência?

Ariel – Sim, é baseada no livro do Paul Lafargne. Conhecemos o livro através da Neli, que por sinal é a autora da letra, irmã do Douglas e quem nos levou à organização trotskista. As idéias anarquistas do autor nos levaram a várias conclusões sobre o pensamento libertário que irritava os socialistas, inclusive, o próprio Paul era desafeto de Marx, de quem era genro.

FZ – Por que o Clemente deixou a banda? Aliás, por que o grupo parou?

Ariel – O Clemente não gostava muito do nosso envolvimento com o movimento revolucionário, estava mais preocupado em sair com o pessoal, encher a cara e brigar, vivia dizendo que não estávamos envolvidos com a cena, o que não era verdade, pois fazíamos as paradas acontecer. Onde não havia condições, arranjávamos e procurávamos reunir todo o pessoal que tinha banda ou vontade de fazer alguma coisa.
Após sair do Restos ele entrou no Condutores de Cadáver e todo mundo já conhece a história. O Restos de Nada não parou totalmente, mudou de nome para Desequilíbrio, o que acho que foi errado, deveríamos ter continuado com o nome que tínhamos adotado.

FZ – A Irene foi a primeira mina a tocar numa banda punk nacional, como isso aconteceu e como vocês viam isso?

Ariel – Nunca na verdade nos preocupamos com isso. A banda já tinha um diferencial desde o começo, pois era metade negra e metade branca e não era grupo de pagode (rs). Veja bem, uma banda de punk rock com dois negros, depois uma mina tocando baixo e depois um japonês era de assustar qualquer um, concordo, mas não a nós. Com a saída do Clemente, a Irene assumiu o baixo e durou pouco tempo até aparecer o Keiji.

FZ – Como nasceu a ideia de gravar um LP após tanto tempo parados (80 a 87)?

Ariel – A ideia era registrar algumas músicas que tínhamos apenas tocado, pois era muito difícil conseguir uma gravação decente na época e também para não deixar um material, modéstia à parte, muito precioso se perder apenas nas lembranças de quem viu a banda ao vivo na época.

FZ – E a volta atual, quando começou a ser arquitetada?

Ariel – No ano de 2001, resolvemos fazer um festival que comemorasse os 25 anos de punk rock pelo mundo e reunimos as produções musicais atuais e do passado, com 54 bandas apenas da Capital e redondezas. Então resolvemos lançar um CD com uma gravação que tínhamos feito em 1980, num terreno baldio na Vila Carolina, para comemorar o evento e gravar quatro sons da época que não foram para o vinil de 87. Aí pensamos: por que não aproveitar e fazer alguns shows? Mesmo porque muita gente pedia. Fizemos o festival e foi simplesmente mágico.

FZ – Vocês acham que ainda tem validade a mensagem dos anos 70?

Ariel – As músicas têm sim uma atualidade que até assusta. Você pega uma música como Deixem-me Viver, que fala de solidão e autodestruição e vê que o número de adolescentes que fazem uso de anti-depressivos aumentou consideravelmente nesses anos todos, aumentando também os suicídios. É triste, mas é a realidade.

FZ – Como percebem a reação do público atual? Que comparação dá para fazer entre os dois públicos?

Ariel – O público de hoje conhece todas as músicas, acompanha tudo o que sai da banda, tem um respeito enorme pela história, compra material e sempre está presente quando a banda toca. A comparação com o público do passado é que éramos iguais aos caras que estavam na platéia e muitos não admitiam que aqueles caras que estavam do lado subissem no palco e tocassem como os seus ídolos estrangeiros. Tudo era novidade e surpresa em 77, portanto não dá pra ficar cobrando muito. Mas sempre tinha uns amigos que davam uma força.

FZ – Não temem que esse retorno possa ser visto como oportunismo?

Ariel – De jeito nenhum, pois nunca nos preocupamos com isso e hoje tocamos apenas para divulgar nossa mensagem que continua atualíssima e necessária. Não estamos aqui por saudosismo, por fama ou dinheiro, portanto, oportunismo passa longe. Afinal somos apenas Restos de Nada (rsrs).

FZ – Pretendem fazer músicas novas?

Ariel – Não pretendemos fazer músicas novas. O que tínhamos que fazer ficou registrado, finalmente, e a banda não veio para continuar, apenas para resgatar mais um pouco da história que não foi contada como se deveria, então achamos melhor voltarmos pra dizer por nós mesmos.

FZ – Quem está na formação atual? Onde estão os ex-integrantes?

Ariel – Na formação atual contamos com Douglas na guitarra, Ariel no vocal, Luiz no baixo e Douglinhas na bateria. Bem, da primeira formação, o Douglas está terminando um curso de música numa faculdade e dando aulas de guitarra. O Clemente está com o Inocentes e, de uns tempos para cá, com a Plebe Rude. O Charles desencanou da música e toma conta de uma ONG na Zona Sul e eu continuo no punk rock com a banda Invasores de Cérebros. Espero que o Punk Rock continue influenciando gerações a dizer não.

Baixe aqui o LP Restos de Nada, de 1987 (ripado do vinil)

restos

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