Ton Steine Scherben, na raiz do anarco-punk germânico

Na virada da década de 60 para 70, a Europa fervia com os movimentos estudantis. Não foi só na França que carros foram incendiados, pessoas sequestradas e bombas detonadas. Havia o pessoal do flower power, contestador e pacifista, mas também vários grupos mais radicais e violentos. Na Alemanha, particularmente, a moçada partiu para a ação direta, inclusive com grupos terroristas. O mais famosos deles foi o RAF (Facção do Exército Vermelho, em português).

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Nas grandes cidades, especialmente Berlim, surgiram os primeiros squatters, ocupando prédios abandonados. No meio disso tudo, a presença do rock foi natural. Um dos grupos nascidos neste contexto e que codificou essa efervescência política em letras e atitudes foi o Ton Steine Scherben.

Fundado pelo guitarrista e vocalista Rio Reiser, o guitarrista Ralph Peter Steitz Lanrue, o baterista Wolfgang Seidel e o baixista Kai Schchtermann, o Ton Steine fazia rock sem apegar-se a um estilo específico. Pesado em algumas músicas, “viajandão” em outras. Básico e ao mesmo tempo bem trabalhado, características que certamente têm ligações com o inovador “Krautrock” (sobre isso, recomendo esse post do blog Trabalho Sujo).

Mas o que conecta o Ton Steine com o punk são as letras e a atitude. Os dois primeiros LPs foram feitos de maneira totalmente independentes, pelo selo David Volksmund Produktions, de propriedade deles mesmos. Eram anti-capitalistas e anarquistas em uma época em que a Alemanha ainda estava dividida e com muitas feridas mal cicatrizadas de uma guerra que devastou não apenas cidades, mas toda uma geração. E sempre deixaram isso bem claro nas letras.

steine5Apenas para ilustrar, um trecho de uma das músicas (porcamente traduzido via Google): “Cinco horas, hora de fechar / Correr até o ônibus noturno, o ônibus noturno / Jantar, ir ao pub mais próximo, beber cerveja / Eu quero ficar tão bêbado até não poder ver mais nada / Eu quero ficar tão bêbado até não poder mais ver tudo”.

No entanto, o descompromisso com a estética visual e o fato de as letras serem em alemão (fato raro na época entre as bandas germânicas) os deixaram à margem do cenário internacional. O primeiro registro em vinil da banda foi um compacto com as músicas Macht Kaputt Was Euch Kaputt Macht (Calar-se é o que te faz mal) Wir Striken, (algo como “nós obedecemos”, ou seguimos à risca uma ordem), lançado em setembro de 1970.

No ano seguinte, saiu o álbum Wahrum geht es mir so dreckig? (Por que eu sou tão miserável?). Em 1972, fizeram o segundo LP, com o título Keine Macht Für Niemand. (“nenhum poder pra ninguém”). Nesse disco, devido à natureza libertária do grupo, a formação já sofreu as primeiras mudanças com a substituição de Seidel por Olav Lietzau nas baquetas. Além disso, os vocais ficaram a cargo de Nikel Pallat. Participaram também desta segunda bolacha o saxofonista Jochen Petersen e o flautista Jörg Schlotterer.

Entre o primeiro e o segundo álbum, lançaram dois flexi-singles, extremamente raros. A capa de Keine… apresentou uma inovação, pois foi feita de papelão.

A repercussão destes discos no cenário underground de Berlim foi bastante significativa e o grupo passou a ser o representante das facções mais radicais. Em uma proporção reduzida, estariam para o punk alemão mais ou menos como Velvet Underground, MC5 e Stooges para o punk nos EUA e na Inglaterra.

Com o tempo, porém, os integrantes do grupo, especialmente os “líderes”, sentiram a pressão de serem porta-voz de coisas que não sabiam se realmente acreditavam, como atentados violentos, por exemplo. Ou assaltos à mão armada. Assim, resolveram sair de de Berlim para uma fazenda abandonada, em Fresenhagen.

Ton Steine Scherben, 1972© Rio-Reiser-Archiv
Ton Steine Scherben, 1972 © Rio-Reiser-Archiv

Logo o que era uma banda, passou a ser uma espécie de coletivo, com cerca de 20 pessoas habitando o local e quase sempre, muito mais orbitando por lá. A fazenda tornou-se um núcleo de apoio a diversos projetos artísticos até 1985, quando as dívidas tornaram-se impagáveis e o sonho chegou ao fim.

Em termos musicais, depois do segundo LP o Ton Steine Scherben adotou um estilo mais jazzístico, com ares de avant-garde e letras pessoais. Por outro lado,  nunca abandonou o ideal anarquista e libertário. Na Alemanha, é reconhecido como precursor do anarco-punk e até mesmo do ideal do it yourself que seria popularizado pelo punk inglês e americano alguns anos depois.

O fato é que mostraram que era possível viver não à margem do sistema, mas criar uma alternativa a ele, baseada em cooperação. É como se tivessem dito:  “Não lançam seus discos? Não publicam seus livros? Não falam sobre suas bandas? Não vendem roupas como você gosta? Não há espaço para as bandas? Ora, juntemos forças e façamos tudo por nós mesmos”.

Baixe aqui o LP Wahrum geht es mir so dreckig? e aquiKeine Macht Für Niemand

Curiosidades

  • Pode ser complicado traduzir o nome do grupo para outra língua, uma vez que os próprios integrantes da banda divergiam sobre o significado de Ton Steine Scherben. Teria sido inspirado pela frase de um arqueologista sobre suas primeiras impressões acerca do sítio arqueológico de Troia, que classificou como um monte de “argila estilhaçada”. Outra versão é de que o grupo fazia um “som da pedra lascada” (ton, em alemão, pode ser traduzido por “som”, “tijolos” ou “barro”. Mas Rio Reiser era um fã dos Rolling Stones, e o nome seria uma homenagem aos ídolos. E, por fim, seria uma referência ao Partido dos Trabalhadores Alemães que se chamava “Bau Steine Erden”. Vai saber…
  • A primeira apresentação da banda foi no mesmo palco onde Jimi Hendrix acabara de fazer seu último show, em um festival na Ilha de Fehmarn. Durante o show, começou um incêndio no palco e a banda não parou de tocar, o que lhes rendeu grande fama entre os roqueiros radicais da época.
  • Imediatamente após o fim do sonho do Ton Steine na comuna de Fresenhagen, Rio Reiser iniciou uma bem sucedida carreira solo e alcançou o sucesso comercial que a banda nunca tivera. Seu maior hit foi König von Deutschland (Rei da Alemanha), curiosamente uma música escrita em 1974 para um disco do Ton Steine, mas recusada pela banda.
  • Rio Reiser faleceu em 20 de agosto de 1996, aos 46 anos, por complicações de Hepatite C. Em sua carreira solo foi acompanhado por R.P.S. Lanrue. Os dois foram os reais fundadores do Ton Steine. O verdadeiro nome de Rio era Ralph Christian Möbius.
  • Durante o período de Fresenhagen, o Ton Steine lançou seis álbuns, alguns deles com produção de Claudia Roth, uma das fundadoras do Partido Verde Alemão.
  • Após a morte de Rio, os remanescentes do grupo passaram a se apresentar como Ton Steine Scherben Family.

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