The Mekons, acima de rótulos

Uma das características do Factor Zero enquanto fanzine impresso era falar também de bandas na época chamadas “new wave” e que hoje carregam o rótulo de “pós-punk”, seja lá o que for uma e outra coisa. No fundo, são apenas rótulos. E uma das bandas pioneiras desse estilo foi o The Mekons. Na verdade, o primeiro The Mekons, que durou até 1982, uma vez que o grupo passou por inúmeras mudanças e fases.

mekons

O The Mekons surgiu, ou melhor, começou a se formar, em 1976, em Leeds, na Inglaterra, e está em atividade até hoje. No entanto, os únicos remanescentes da primeira fase, são o ex-baterista Jon Langford e o guitarrista Tom Greenhalg. Nos seus 40 e poucos anos de estrada, o The Mekons fez uns 20 álbuns e já viu passar pela formação mais de 30 pessoas (em alguns discos, houve participação de 20 figuras!). Apesar disso, até hoje as letras são assinadas apenas por “The Mekons”.

O grupo fazia parte de uma “microcena” em Leeds. que tinha como expoentes ainda o Gang of Four e o Delta 5. Em comum, além da amizade entre os integrantes das bandas e o fato de serem todos estudantes, as letras de todos eram essencialmente politizadas.

Só que, enquanto o Gang of Four e o Delta 5 tinham uma certa noção musical, o Mekons, pelo menos nos primeiros anos, mal conseguia tocar seus instrumentos. É difícil até dizer quem eram os membros no início, já que a cada apresentação ou ensaio entrava e saía quem quisesse. Era um coletivo, na verdade,

O primeiro vinil do The Mekons foi o compacto Never Been in a Riot (1978), uma “resposta” a White Riot do Clash. No lado B, 32 Weeks e Heart & Soul. Na época, Leeds, cidade que tem bastante faculdades, fervia politicamente e uma das lutas dos estudantes era exatamente contra o racismo, que crescia (e continua crescendo!) na Inglaterra.

O som do Mekons no single de estreia era bem primitivo e a gravação feita em dois canais. Lembra (bastante) o Crass e outras bandas anarquistas da década de 80. Na formação, além de Jon e Tom, estavam os vocalistas Andy Carrigan e Mark White, o guitarrista Kev Lycett e a baixista Ros Allen (que também tocava com o Delta 5). Este seria o núcleo da primeira fase do Mekons.

Ainda em 78 saiu o segundo single, Where were you, um dos melhores do grupo. Os dois compactos foram lançados pela independente Fast Products. A boa repercussão de Where… habilitou o The Mekons a assinar com a Virgin Records, gravadora pela qual estrearam com Work All Week / Unknow Wrecks já bem mais “profissional”.

Ainda em 1979, sairia o já esperado primeiro LP. Com o título The Quality of Mercy is Not Strnen, o álbum tornou-se referência para centenas de bandas no mundo todo. Mas isso demorou um pouco para acontecer. Na verdade, o disco não foi bem recebido pela imprensa musical. Talvez pela expectativa criada em cima das incendiárias performances do grupo ou talvez não tenha sido compreendido, já que, pelo menos na época, não era um som muito “fácil”.

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Em 1980, lançaram Teeth, um compacto duplo (dois vinis de 7″). Acabou sendo o último disco deles pela Virgin, que resolveu dispensá-los em virtude das vendas fracas. O que era compreensível, já que o som não tinha nada de comercial e nenhum dos discos sequer ameaçou figurar em listas dos mais vendidos.

No mesmo ano, o Mekons assinou com a Red Rhino e lançou o quinto compacto, Snow / Another One. No ano seguinte, sairia o segundo álbum, com o pomposo título Devil, Rats and Piggies, a Special Message From Godzilla, já com tendência para um som mais pop (embora nada comercial) e predominância de teclados, assumidos pelo jazzista John Gil. Outra mudança foi a troca da baixista Ros Allen por Mary Jenner. Este disco foi relançado em CD pela Cherry Red, mas a banda contesta os direitos e deve ter razão, já que o CD foi masterizado a partir de uma cópia de vinil!

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A trupe do Mekons em 1979

Por volta de 1982-83 o grupo dispersou e foi mantido apenas por Jon, Tom e Keith, enquanto os demais membros eram, digamos, “rotativos”. Em 1985, o Mekons ressurge totalmente reformado com a vocalista Sally Timms e a violinista Susie Honeymoon. O retorno foi marcado com o álbum Fear and Whisky, que apresenta com um som mais denso e “dark”. O LP teve participação de nada menos do que 16 pessoas.

Desde então, o Mekons tornou-se uma instituição mutante. Fizeram bons trabalhos, com estilos variados, indo do country ao eletrônico. Particularmente acho o álbum Rock’nRoll, de 1989, um grande disco. Vale a pena ouvir tudo, mas totalmente desarmado da armadura “punk”…

Para quem quiser conhecer a primeira fase do grupo, seguem os links para os quatro primeiros singles em o excelente primeiro LP. Diversão garantida!
Mekons singles 78-80
Mekons – The Quality of Mercy is Not Strnen

Curiosidades

  • Nos primeiros meses de existência o Mekons usava o equipamento do Gang of Four, já que não tinha seus próprios instrumentos. Nessa fase, outra característica era convidarem pessoas na plateia a subir ao palco e tocar junto com eles. Caos total. Anarquia!
  • Mark White, um dos vocalistas e membros pioneiros do grupo, também foi fundador do Spin Doctors, banda de relativo sucesso nos anos 90.
  • Jon Langford é um dos Three Johns, banda paralela criada por ele em 1982, com John Hyatt e Philipp John Brennan. Com uma bateria eletrônica e um som totalmente diferente do Mekons, os Johns eram bem políticos também. O grupo ficou bastante conhecido por bater forte em Maggie Thatcher e o partido conservador inglês. Acabou no início dos anos 90 quando Langford resolveu dedicar-se exclusivamente ao Mekons.
  • No LP Fear and Whisky, de 85, o ex-guitarrista do Damned, Lu Edmonds, aparece pela primeira vez como colaborador do Mekons. Com a banda até hoje, Lu tornou-se um multi-instrumentista, especializado em cordas orientais. Toca também com o PIL.
  • O nome da banda foi tirado dos quadrinhos de ficção científica do herói Dan Dare, “o piloto do futuro”, criado por Frank Hampson. Mekon era o vilão extraterrestre, vindo do planeta Vênus, que, claro, queria dominar o universo. Esses quadrinhos foram muito populares nos anos 50 e 60, no Reino Unido.

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Um comentário em “The Mekons, acima de rótulos

  1. Caramba… É muito massa ter acesso a essas infos todas agora, pois na época eu não tinha como. Gostei.

    Curtido por 1 pessoa

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