Los Violadores, pioneiros do punk “porteño”

Nos anos 70, a América do Sul sofria sob o peso das botas e fuzis militares. Entre as ditaduras do continente é difícil dizer qual foi a mais sangrenta e repressora, mas certamente a da Argentina é forte candidata a esse “título”. Assim, por lá também foi natural o surgimento do punk, mesmo sob uma violenta repressão, que tinha olhos e ouvidos por todos os cantos.

Como em qualquer ditadura que se preze, fenômenos culturais que tivessem o mínimo traço contestador eram abafados. Mesmo assim, como aconteceu no Brasil, os militares viram que seria difícil manter um regime tão fechado por tanto tempo. Não que tenham resolvido ficar bonzinhos de uma hora para outra, mas os problemas econômicos tornavam-se cada vez mais evidentes e era necessário passar o bastão… e o abacaxi. A humilhante derrota na Guerra das Malvinas, acabou sendo a gota que faltava.

Punk argentino
Os caras do Los Testículos com amigos em Buenos Aires, 1979

Nesse contexto, começava a surgir silenciosamente (e ao mesmo tempo com muito barulho), quase simultaneamente nas periferias de São Paulo, Buenos Aires e Lima (no Chile, seria mais tarde um pouco), os primeiros punks da América do Sul, por volta de 1978 e 79.

Hijos de la represión

hari-bNa Argentina, a primeira banda punk foi o Los Testículos, surgida em 1978 e idealizada pelo guitarrista Hari B (Pedro Braun). Descendente de poloneses, o cara havia aderido ao punk após voltar de um rolê na Europa, no qual estivera em Londres e havia conhecido algumas das principais bandas da primeira era punk, entre elas, o The Clash e o Sex Pistols.

Motivado por uma matéria que afirmava não haver punk na Argentina, Hari B escreveu uma carta para a Pelo, uma revista especializada em rock, autoproclamando-se punk e convidando outros leitores a entrarem em contato com ele. Na mesma seção de cartas da edição seguinte, o baterista Sergio Gramática respondeu ao chamado. No final de 1978, os dois mais um vocalista chamado Nestor e o baixista Mauricio Conterno subiram ao palco pela primeira vez, ainda como Los Testículos.

Los Testículos
Primeira formação do Los Testículos, 1978
Los Testiculos
A segunda encarnação do Lo Testículos, 1979

Em abril de 1979, com Beto Vilaverde no baixo e SS Genocida nos vocais, o grupo se apresentou para uma plateia de meia dúzia de pessoas. Para azedar ainda mais a “memorável” noite, a polícia apareceu e levou todo mundo em cana. Após dois dias de cárcere, foram soltos, mas decidiram “dar um tempo”. Nessa breve parada,  Hari-B passou pelo serviço militar e decidiram mudar o nome para Los Violadores.

No retorno, Orlando García Paladini substituiu SS Genocida no microfone. Logo o grupo voltou ao palco, desta vez com uma plateia maior: cerca de dez pessoas… Após essa apresentação, Paladini também saiu e por um tempo o Los Violadores foi um trio. Então, Beto também resolveu abandonar o barco. Em seu lugar, Stuka (Gustavo Fossá) assumiu o baixão. Pouco depois, o vocalista Pil Trafa (Enrique Chalar) entra para a banda.

Com essa formação, o Los Violadores enfim começou a ganhar algum nome, já em 1981, quando passaram a se apresentar com mais frequência. Em 1982, finalmente, foram para o estúdio e gravaram um LP. Entretanto, o disco seria lançado apenas no ano seguinte, após as eleições que representaram o fim oficial da ditadura militar na Argentina.los violadores capa

Ao contrário dos punks brasileiros, que faziam um som já puxado ao hardcore, tosco e agressivo, o Los Violadores tinha uma linha musical mais próxima ao punk melodioso de bandas como The Clash e Buzzcocks. A produção desse primeiro álbum punk portenho também foi mais cuidadosa do que as que haviam sido feitas no Brasil até então. Outra diferença, e já no campo da opinião pessoal (foda-se), as letras também eram mais elaboradas e diretamente associadas à realidade do país. É um disco histórico (e raro), bastante procurado por colecionadores do mundo todo.

Los Violadores
A formação que gravou o primeiro LP do Los Violadores, em 1982 (lançado em ’83)

Mas eis que, após o lançamento do álbum, denominado simplesmente Los Violadores, foi a vez de Hari B, o principal idealizador do grupo, cair fora. Sua alegação foi de que o Violadores era um instrumento de combate ao regime, não apenas um grupo musical. Assim, com a derrota da ditadura, não via mais sentido em continuar a luta e passou a dedicar-se ao montanhismo.

Sem Hari, os rumos musicais dos Violadores começaram a mudar para um estilo mais comercial. Lá, como aqui, no inicio da década de 80, o rock com uma pegada mais pop ou “new wave”, ganhava cada vez mais espaço no rádio. Assim, o segundo LP do Violadores, com o título Y Ahora Que Pasa, Eh?, de 1985, já soa mais “lapidado”. Talvez menos inglês e mais “argento”.

Depois disso, a banda mudou de formação diversas vezes e durou até 1992, com um total de sete álbuns, mais um ao vivo e outra coletânea. Voltaram em 2000 e estão na ativa, mas com apelo mais comercial e (por que não?) atual.

O primeiro e pioneiro LP dos Violadores pode ser baixado aqui.

Curiosidades

  • Em diversas ocasiões se viram obrigados a mudar o nome da banda nos cartazes para “Los Voladores”, já que o regime não via com bons olhos um grupo com nome tão agressivo. Parece mentira, mas não é.
  • Hari B também esteve na primeira formação do Comando Suicida, talvez, a primeira banda Oi! da América Latina.
  • O final do grupo em 1992 deu-se devido às velhas e comuns “insuperáveis diferenças musicais” entre Pil Trafa e Stukas, únicos membros originais que restavam no grupo. Após o fim, Trafa formou o Pilsen e o baixista criou o Stukas en Vuelo. Em 2000, entretanto, reataram a amizade e reformaram o grupo, com Roberto “Polaco” Zelazek, .
  • Em 2015 foi lançado o livro Uno, Dos, Ultraviolento – La historia de Los Violadores, escrito por Esteban Cavanna, ex-empresário do grupo.
  • Em 2015, para comemorar os 30 anos do lançamento de Y Ahora Que Pasa, Eh?, o segundo álbum do grupo, Hari-B, Stuka, Gramática e Pil, voltaram a tocar juntos após 27 anos.
Los Violadores manifesto
O manifesto Ser Punk, assinado pelo “Los Violadores” e publicado na revista El Porteño, em 1983

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