Pesadelo em Vancouver, mais raízes do punk canadense

De volta à cena punk canadense, vamos atravessar o país de Toronto até Vancouver,  numa trip de 4.380km… A primeira banda a fazer um som punk por lá foi o The Furies, embora um outro grupo, formado só por minas, tenha surgido quase ao mesmo tempo: o The Dishrags (na verdade, elas eram de Victoria, que fica ao lado de Vancouver). Ambos tiveram uma vida bem curta, mas não há banda que tenha surgido depois, na época, claro, que não os cite como referência.

Dá para dizer que foi a partir dessas três bandas (mais DOA e Subhumans, claro) que a cena punk de Vancouver se desenvolveu. Não se pode falar em “explosão”, como aconteceu em outros lugares, pois na verdade, não eram muitos os punks, como Joey Shithead deixou claro em seu livro. Os poucos locais que aceitavam as bandas punk abriam e fechavam com a mesma rapidez que a molecada começava e acabava ou trocava os integrantes dessas mesmas bandas. Poucas cenas foram tão incestuosas como a de Vancouver. Uma zona.

THE FURIES

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O The Furies começou no início de 77 e acabou no mesmo ano, ou seja, não chegaram a completar um ano de existência. A primeira apresentação do grupo foi em maio e a última, em setembro. Mas o fato de terem sido os pioneiros do punk em Vancouver chamou a atenção da mídia local. Nos poucos meses em que estiveram em atividade apareceram em jornais, revistas e até em um programa de televisão, o que contribuiu para que outros jovens resolvessem formar suas bandas.

Certamente, se não tivessem existido, o punk floresceria em Vancouver da mesma maneira (isso era inevitável, lá com em todas as partes do mundo) mas eles deram o ponta pé inicial e merecem ser lembrados por isso.

A ideia de montar o Furies foi do guitarrista e vocalista Chris Arnett que convidou os amigos de faculdade Malcom Hasman (baixo e vocal) e Jim Albert (bateria) para a empreitada. Mesmo com tão pouco tempo, o grupo ainda teve a substituição de Malcom por John Warner, um mês antes de acabar.

Embora não tenham gravado nenhum disco, entraram em estúdio e registraram duas músicas em uma demo tape. Apenas uma delas saiu em uma coletânea chamada Last Call, lançada em 1991.

Para variar, em 2007, o grupo se reuniu para um “remember”, com Chris, John e o baterista Taylor Little. Entusiasmados com a resposta do público resolveram gravar dez músicas dos bons tempos e ainda compuseram mais duas. O CD está rolando por aí (não tenho).

A título de curiosidade, após o fim da banda John e Jim mudaram-se para a Inglaterra e Jim tornou-se baterista do PIL (sim, a banda de John Lydon, vulgo Johnny Rotten), além de ter tocado no Human Condition, junto com Jah Wobble (também do PIL), e no The Pack, com Kirk Brandon (futuro Theatre of Hate) e Rab Fae Beith (The Wall). John Warner também era integrante da primeira formação do The Pack. Tem história!

 

THE DISHRAGS

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Se a Inglaterra tinha as Slits e Toronto a The Curse, Vancouver tinha as Dishrags como pioneiras da cena punk. Nascido praticamente junto com o Furies (abriu o primeiro show deles, com o nome “Dee Dee and The Dishrags”, em homenagem ao guitarrista do Ramones) era um trio de garotas com idade entre 15 e 16 anos.

Uma possível explicação para que existisse um grupo só de mulheres tão cedo por lá é que a vocalista e guitarrista Jade Blade, fundadora do Dishrags, era prima de Chris Arnett do uries. A primeira formação tinha ainda a baixista Dale Powers e a baterista Scout. No início, faziam um som bem básico, primitivo mesmo, pois mal sabiam dominar seus instrumentos. Mas conseguiram evoluir e superaram musicalmente várias bandas da época. Em 78, abriram o show do Clash em Vancouver.

Em termos de gravação, participaram da histórica coletânea Vancouver Complication e lançaram dois compactos. O primeiro, de 1979, tem três faixas: Past is PastLove is Shit Tormented. O incrível é que o som tem uma pegada hardcore! O disco foi gravado em Seattle (que não é distante de Vancouver) no Triangle Studios, o mesmo em que mais tarde o Nirvana registraria suas primeiras canções.

Mas pouco depois de sair a bolachinha, Dale Powers deixou o grupo. Em seu lugar entrou a baixista Kim Henriksen e o grupo ainda ganhou uma guitarrista extra: Sue MacGillivray. As duas novas integrantes eram de um outro grupo só de minas, chamado Devices, que havia acabado.

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O quarteto foi para a Inglaterra gravar o segundo single, pela Stiff Records e distribuído pela RCA inglesa, já em 1980. O compacto tem quatro músicas e chama-se Death in the Family, que além da faixa-título trouxe All the Pain Beware of the Dog. Bem diferente do primeiro, mais lento e mais apurado, mas sem concessões comerciais.

No entanto, discussões internas levaram ao fim da banda, provavelmente ainda durante as gravações do segundo disco, que chegou às lojas já com a banda fora de atividade. Em 1997, foi lançado um CD com tudo o que elas gravaram (incluindo faixas de demo tapes e ao vivo), chamado Love/Hate, que ajudou a resgatar esse pedaço precioso da história não contada do punk. Em tempo: “dishrag” pode ser traduzido como “puta rampeira”, ou algo parecido…

ACTIVE DOG

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Mais um grupo de vida curta , porém, que lançou sementes fortíssimas na cena punk de Vancouver. A história deles começa em 1978 quando três integrantes do The Monitors (também conhecido como The Shits) – o tecladista Dash Ham, o guitarrista John “Buck Cherry” Armstrong e o vocalista Bill Shirt – saíram da pequena Surrey-White Rock para a vizinha Vancouver. Lá se uniram a Terry Bowes (guitarra), Ross Carpenter (baixo) e Robert Bruce e adotaram o nome Active Dog.

Com essa formação tocaram por um ano e meio, e ganharam respeito e fama na cena underground. Em 1979, pouco antes de entrarem em estúdio para fazerem suas primeiras gravações, Dash e Bruce deixaram a banda para formar o Pointed Sticks (no qual o tecladista assumiria com o nome Gord Nichol).

Mesmo assim, o Active Dog gravou, mas a banda já não existia mais pra promover a bolacha quando ela saiu. Armstrong foi para o The Modernettes, enquanto Bowes e Carpenter formaram o Antheads (que nem chegou a gravar nada). Já Bill Shirt se juntou a Art Bergmann (ex-Young Canadians) no Los Popularos.

POINTED STICKS

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O Pointed Sticks ficou mais famoso como uma banda “power pop” no início da década de 80. No entanto, o grupo começou em 1978 como uma pegada mais punk, passou por uma fase em que equilibrava-se entre um som agressivo, pesado, e ao mesmo tempo melódico. Out of Luck, música do segundo single, de 1979, poderia fazer parte do repertório de qualquer banda “pos-Green Day”.

Não por acaso, o primeiro álbum do Pointed Sticks, Perfect Youth, lançado em 1980, seja um dos primeiros clássicos do que depois se chamaria “pop punk”. O disco foi uma das primeiras produções do hoje mundialmente famoso Bob Rock.

A formação original do Pointed Sticks tinha o vocalista Nick Jones, o guitarrista Bill Napier-Hemy, o baixista Tony Bardach e o batera Ian Tiles. Mais tarde, o tecladista Gord Nicholl (ex-Active Dog) e o saxofonista português Johnny Ferreira juntaram-se ao grupo. Também tocaram com os Sticks o baterista Robert Bruce (ex-Active Dog) e nosso amigo Ken “Dimiwitt” Montgomery (veja os posts sobre o DOA e o Subhumans), além do baixista Scott Watson.

O grupo esteve na ativa até 1981 e lançou quatro compactos e um LP. Curiosamente, assinaram com a Stiff Records, da Inglaterra e eram mais famosos fora de seu país. Em 2006, a Sudden Death Records, de Joey Shithead, relançou Perfect Youth e, em 2009, com a formação original, voltaram a gravar em estúdio. O fruto desse reencontro foi o álbum Three Lefts Make a Right. Não tão bom quanto nos velhos tempos, mas ainda (muito) bom.

Em 2015, o Pointed Sticks, ainda com a formação clássica, fez seu terceiro álbum, batizado simplesmente Pointed Sticks. Uma boa coleção de músicas pop, com um pé na garagem e um ouvido no rádio.

 

THE MODERNETTES

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Outro grupo que transitava na fronteira entre o punk e o pop, mas com mais peso, era o The Modernettes. Formado em 1979 por John Armstrong, também conhecido por Buck Cherry (guitarra e vocal), Mary-Jo Kopechne (baixo) e Jughead (bateria), o grupo deixou poucos registros em vinil. A discografia da banda inclui um single (Strictly Commercial) e dois EPs (o clássico Teen City, o melhor momento deles, e View From The Bottom, um pouco mais comercial).

Meio anos após o final do grupo, anunciado em março de 1981, saiu um EP de 12″ chamado Gone… But Not Forgotten, raríssimo por sinal.  sorte é que as faixas foram incluídas e uma coletânea chamada Get It Straight, da Sudden Death Records, que reúne praticamente tudo o que eles gravaram.

Armstrong também foi integrante do Active Dogs e já tentou ressuscitar a banda, entretanto, Mary-Jo (cujo verdadeiro nome é Mary Armstrong) trocou a música por uma pacata vida na zona rural de Alberta e Judgehead, simplesmente sumiu.

 

I, BRAINEATER

Braineaters - 1979 - First EP

bastante influente no punk canadense, o I, Braineater é, na verdade, um dos muitos projetos de Jim Cummins, um artista plástico loucaço que visualizou na cena punk/new wave uma maneira de expressão. O cara fez as capas de vários discos, incluindo a do primeiro álbum do Pointed Sticks.

Mas o I, Braineater nunca foi um grupo fixo e punk rock mesmo só na primeira encarnação que tinha além de Cummins, Dave Greg (D.O.A.) na guitarra, Art Bergmann (K-Tels) no teclado, Buck Cherry (Modernettes) no baixo e Ian Tiles (Pointed Sticks) na batera. Um supergrupo que gravou um apenas compacto.

Depois, a banda teve várias formações diferentes, nas quais apareceram com mais frequência o tecladista Steve Laviolette e o percussionista Ivo Zenatta. Mas sempre com uma pegada mais experimental. Em todo caso, o início foi marcante e Cummins ajudou a desenvolver a cena de Vancouver.

 

K-TELS / YOUNG CANADIANS

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O K-Tels teve sua importância, mas ficou mais famoso como Young Canadians. A mudança não foi espontânea, mas sim resultado de uma ação jurídica movida pela multinacional K-Tel Inc., na época, uma gigante do entretenimento. Por um curto período chegaram a se chamar X-Tel.

O grupo era um trio comandado pelo talentoso vocalista e guitarrista Art Bergmann, com Jim Boscott no baixo e voz e Barry Taylor na batera. Apesar de terem conquistado bom público e feito vários shows grandes, eles resolveram colocar um ponto final na história da banda em 1980.

Lançaram dois EPs de 12″ (Hawaii This Is Your Life), ambos com produção de Bob Rock, mais um compacto de 7″ (Automan), que foi distribuído junto com a primeira prensagem de Hawaii.

Bergmann era a figura central da banda. O cara recebeu um prêmio Juno, um dos mais importantes na música do Canadá, como artista revelação e… o trocou por drogas. Chegou a assinar com grandes selos e a gravar com assistência de produtores renomados (John Cale, inclusive), mas nunca fez as concessões exigidas pelas gravadoras e, consequentemente, jamais produziu um grande “hit” para a indústria fonográfica. Jogaria no meu time, tranquilamente.

Logo após o fim do Young Canadians, Art Bergmann fundou o Los Popularos, com um estilo mais rock’n’roll e que se tornou uma lenda na história do rock canadense. Na verdade, era um projeto em que ele convidava membros de outros grupos para shows e gravações em estúdio.

Jim tocou ainda em diversas bandas desconhecidas e morreu em 2005, em um acidente não esclarecido dentro de um estacionamento de carros. Após o fim do grupo, Barry se juntou ao Shanghai Dog e eventualmente toca com bandas menos famosas ainda.

UJ3ERK5

uj3rk5Impossível falar do punk de Vancouver da década de 70 sem citar o UJ3RK5 (lê-se “iu jerkers”). Apesar de não serem realmente punks, acabaram adotados pela cena (o que não era raro nos primeiros anos do punk rock e aconteceu muito em outros países).

A história desses malucos começa quando Frank Ramirez e Rodney Graham resolveram se apresentar em cafés de Vancouver ora como “U2” (sim!), ora, “Gentlemen2”. Até que resolveram ampliar a brincadeiRa e convidar outros artistas. Assim, em 77, adotaram o estranho nome.

Fizeram algumas gravações, mas só começaram a se apresentar ao vivo como um grupo em 79 e foram imediatamente identificados como punks pela estranheza de suas músicas e a temática crítica das letras, embora o som estivesse mais para o que muita gente chama de “art rock”.

WASTED LIVES

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O Wasted Lives começou em 1978 e acabou no ano seguinte. No início, se chamavam 4 Day Wonder, mas pouco depois dos primeiros ensaios, dois integrantes deixaram o grupo. Um deles era o guitarrista Brad Kent, que foi para o Avengers. A formação da banda então passou a ter Phil Smith (voz e teclados), Colin Griffiths (guitarra), Mary J-Kopechne (baixo) e Andy Graffiti (batera).

O Wasted Lives se apresentou poucas vezes. Em vinil, gravou uma faixa para a coletânea Vancouver Complication e um compacto lançado postumamente com dois sons (Divorce e False Hopes). Curiosamente, a segunda música foi creditada a um grupo chamado Big Black Puppets, mas o que aconteceu é que eles precisavam de mais um som para lançar o single e Phil Smith e Mary chamaram uns amigos para gravar o lado b. Teria sido uma banda promissora…

Embora outras cidades como Montreal, Ottawa e Quebec tenham tido suas bandas e, num futuro próximo, falarei de algumas (como o incrível The Action, por exemplo), foi em Vancouver e Toronto que o punk surgiu no Canadá.

Quem desejar mais informações sobre a cena de Vancouver, sugiro o site Bloodied But Unbowed, com certeza, a melhor fonte possível na Web. Também o site da Sudden Death Records, selo dirigido por Joey Shithead (DOA), tem bastante informações e vende material relacionado. Abaixo vão os links para conhecer alguns dos sons desses verdadeiros heróis do underground, pioneiros não apenas de uma cena local, mas de um novo estilo de vida. Vocês sabem do que estou falando…

The Furies

The Dishrag

Active Dog + Wasted Live

Pointed Sticks (Perfect Youth LP)

Pointed Sticks (Perfect Youth bonus tracks) 

The Modernettes

I, Braineater

UJ3RK5

K-Tels / Young Canadians

Vancouver Complication (coletânea)

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