Chelsea, uma lenda viva do punk rock

O bairro londrino de Chelsea atualmente é mais conhecido pelo time de futebol que leva seu nome mas, curiosamente, tem seu estádio – o Stamford Bridge – no bairro vizinho de Fulham. É famoso também como um bairro boêmio, local de encontro de artistas (e) marginais. Não por acaso, tem uma ligação muito forte com a música underground e, claro, as raízes do punk inglês.

chelsea2Chelsea, a banda, surgiu em agosto de 1976 e, coincidentemente,  seus componentes também não moravam no bairro! O nome surgiu apenas como referência aos anos 60, já que a região era a casa de várias bandas de rock daquele período.

O grupo foi formado a partir do vocalista Gene October e a primeira formação contou ainda com o guitarrista William Broad, a.k.a. Billy Idol, o baixista Tony James e o baterista John Towe. Ainda sem nome, apresentaram-se pela primeira vez como LSD, abrindo para o Throbbing Gristle. Em novembro de 76, depois de de três apresentações, Gene ficou sozinho, já que os outros três integrantes saíram para formar o Generation X.

Gene não se abalou e rapidamente recrutou o guitarrista Marty Stacey e o baixista Bob Jessie. No entanto, antes mesmo de arrumar um novo baterista os dois novos integrantes também deram no pé. Insistente, Gene colocou anúncios no Melody Maker – na época era o melhor caminho para arrumar alguém a fim de tocar – e logo a banda estava reformada, com James Stevenson na guitarra, Henry Daze no baixo e Carey Fortune na batera.

Outra mudança foi o conteúdo das letras, que ficaram mais politizadas. O primeiro single foi lançado pelo selo Step Forward, depois de uma negociação mal-sucedida com a Polydor. E a estréia em vinil foi um clássico: no lado A, Right to work (uma letra que casaria muito bem com os dias atuais, marcados pelo desemprego em massa) e, no b, The Loner, mais lenta.

Ainda em 77, sairia o segundo single, com High Rise Living No Admission, com uma pegada mais melódica. Após o lançamento deste compacto e uma tour pela Inglaterra, seria a vez de Daze e Fortune deixarem a banda.

Novamente reformado, agora com dois guitarristas (Stevenson e Dave Martin) mais o baterista Steve J. Jones e o baixista Geoffey Miles, o Chelsea entrou em estúdio para gravar seu esperado primeiro álbum, chamado apenas Chelsea e com dez faixas. Um dos melhores discos daquele ano, sem dúvida.

A destruidora abertura com I’m on fire, uma das melhores músicas da época, anuncia que as muitas mudanças na formação não tiraram o fôlego do grupo. Destacam-se ainda a instigante Decide, a “clashniana” Twelve Men e o “hino” Trouble is the Day.

Após mais uma mudança na formação, desta vez, Chris Bashford no lugar de Steve J. Jones, sai o terceiro compacto, Urban Kids / No Flowers. A bolacha apresenta um Chelsea mais maduro e ainda mais consistente.

No topo

Mas foi entre 1979 e 80, com October, Stevenson, Martin, Bashford e Myles que o Chelsea viveu seu auge. Nessa época, lançaram o segundo LP, na verdade, uma coletânea com várias músicas dos primeiros compactos e algumas inéditas. Na Inglaterra, o disco foi lançado com o nome Alternative Hits e, nos EUA, No Escape. (Particularmente, gosto mais deste do que do primeiro, talvez pela diversidade sonora em consequência de ser mais uma coletânea).

Em 1980, depois do cancelamento de uma tour pelos EUA, a banda, mais uma vez se desintegrou. James Stevenson foi para o GenX, enquanto Myles e Martin formaram o obscuro The Smart. Quando tudo levava a crer que o Chelsea acabara, Gene, na companhia dos guitarristas Nic Austin e Stephen Corfield, do baixista Tim Griffin e do baterista Sol Mintz, manteve o grupo em atividade.

Antes de entrar em estúdio para gravar o terceiro (segundo, na verdade) álbum, Corfield debandou e Paul Linc assumiu as baquetas. Novamente um quarteto, a banda produziu Evacuate, um disco muito mais trabalhado que os anteriores. Um grande álbum, pouco valorizado na época de seu lançamento (1982), em que o hardcore predomina de um lado e o pop barato de outro.

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O Chelsea de 82, época de Evacuate

Depois deste disco, o grupo manteve-se em atividade até 83, incrivelmente, sem mudanças na formação. Seguiu-se um breve período em que Gene partiu para a carreira solo. Como não conseguiu destaque, retomou o nome Chelsea.

“Gene October band”

Entre 1986 e 1994, o grupo (Gene, na verdade) lançou os medianos álbuns Original SinnersRocks Off Underwraps, cada um com uma formação diferente. Mais um hiato seguiu-se até que, em 1999, o grupo (assim como uma centena de outros) voltou à ativa com Gene, Bashford, Stevenson e Myles.

Depois de turnês esporádicas e alguns álbuns com regravações de seus clássicos, em 2005, o Chelsea lançou Faster Cheap and Better Looking, o primeiro de inéditas após o retorno. Por sinal, um disco muito bom, ainda que não tão criativo quanto os lançamentos do período 1976-84. Em 2015, saiu o décimo álbum, Saturday Night, Saturday Morning.

Em 2016, o Chelsea fez uma turnê bem-sucedida em comemoração aos 40 anos da banda e, no ano passado lançou mais m álbum de inéditas, Mission Impossible. Após mais de quatro décadas, Gene October é um cara que tem muita história para cotar, mas com certeza, a parte mais importante foi nos primeiros anos…

Baixe aqui o primeiro LP do Chelsea e aqui, Alternative Hits (No Escape).

chelsea LP

Curiosidades

  • Nos anos 70, Gene October tentou a carreira de ator. Além de alguns filmes pornôs fez uma pequena ponta em Caravaggio, película com temática gay. Também trabalhou em musicais como Urgh! A Musical War e Jubilee, filme que tem Right to Work na trilha sonora.
  • Em 76, foi Gene quem convenceu o dono do Roxy, até então um clube exclusivamente gay, a abrir as portas para bandas punk.
  • O Chelsea tinha estreitas relações com os membros do The Police, muito devido à amizade com o produtor musical Miles Copeland, irmão de Stewart, baterista da banda de Sting que, aliás, chegou a tocar com o Chelsea, em 82, em pequenos shows, quando o grupo ficou sem baixista. Antes, em 79, o The Police abriu para o Chelsea em uma rápida turnê pelo Reino Unido.
  • Outra figura conhecida que passou pelo Chelsea foi Topper Headon, o batera do Clash. Ele participou do álbum Underwraps, de 1989.
  • O guitarrista James Stevenson é um dos membros do Gene Loves Jezebel, banda pop/new wave relativamente bem conhecida e que chegou a fazer sucesso por aqui nos anos 80. Ele também trabalhou com o The Cult e com Beki Bondage, a beldade vocalista do Vice Squad.
  • No Scape, faixa de abertura do segundo LP, é uma música do The Seeds, grupo garageiro dos anos 60 que muita gente considera como um dos precursores do punk.

3 comentários em “Chelsea, uma lenda viva do punk rock

  1. harryhausen 5 jun 2018 — 11:45

    otimo texto!!

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    1. opa! Obrigado!

      Curtir

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