Good Vibrations Records: o pequeno gigante do punk norte-irlandês

Nos anos 70, Belfast era uma cidade tão segura quanto Bagdá ou Cabul atualmente. A Irlanda do Norte, ou Ulster, sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias atuais. A diferença é que depois de muitas mortes sem sentido, alguns acordos foram selados e a situação está bem mais tranquila, embora não totalmente resolvida.

Mas esse post não é sobre a política e a divisão religiosa do Ulster (confesso que não entendo muito bem o que realmente acontece por lá), mas sobre a Good Vibrations Records, o principal selo independente e maior responsável pela divulgação do punk norte-irlandês. A importância desse selo é tão grande que relatar sua história é também contar a história do punk naquele país.

rudi copy

O punk rock na Irlanda do Norte surgiu quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra. Claro que a proximidade geográfica tem tudo a ver com isso. Mas também a situação político-social do Ulster deu sua “contribuição” ao colocar nas ruas uma geração de jovens sem perspectiva de futuro. “No future” na Irlanda do Norte dos anos 70 não era apenas verso de música. Para muitos jovens, entrar em grupos paramilitares (o IRA era apenas um deles, na verdade, existiam muitos) era o caminho natural. Morrer era muito fácil.

Em tal cenário e com Londres a apenas alguns quilômetros, o punk rock, com toda sua agressividade, além de poder ser tocado com instrumentos baratos e em qualquer esquina ou garagem, naturalmente conquistou espaço e logo começaram a brotar bandas por todos os lados.

Uma característica bastante curiosa de muitos grupos do período inicial (76-78) do punk na Irlanda do Norte, era fazerem um som mais melódico, que oscilava entre o punk rock, o power pop e a new wave. Para isso contribuiu o fato de o glam rock de grupos como T-Rex, Sweet e New York Dolls fazerem bastante sucesso por lá.

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As primeiras bandas punks norte-irlandesas foram Rudi, The Undertones e The Outcasts. Outros pioneiros, menos famosos e com existência bem mais efêmera, foram The Detonators, DC9 e Starjets. Todos formados entre 75 e 76.

A cena punk/new wave do Ulster revelou ainda nomes como Boomtown Rats, Radiators From Space e Stiff Little Fingers, mas esses três se mandaram para Londres bem cedo, pois notaram que em seu país, teriam bem poucas chances de gravar alguma coisa. E é aí que entra o herói desse post, um ex-hippie chamado Terri Hooley.

Dono de uma pequena loja de discos em Belfast, que já se chamava Good Vibrations (homenagem a uma música do Beach Boys), Hooley simpatizou com o punk após assistir o Rudi e o Outcasts. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. “Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais…”, conta Hooley numa entrevista de 2008 ao jornal Belfast News Letter (leia o texto completo aqui).

Depois de organizar um show com sete bandas que acabou em grande confusão e a polícia mandando todo mundo para casa na base da porrada (lá, aqui ou e qualquer lugar, polícia é tudo…), Hooley sentiu que era hora de por mais lenha na fogueira. Como a possibilidade daquelas bandas gravarem era praticamente zero, arregaçou as mangas e deu vida ao selo Good Vibrations.

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Àquela altura, final de 1977, o Reino Unido já fervia com o fenômeno punk. Belfast já havia recebido o The Clash, em um show que entrou para a história por ter sido cancelado pouco antes de começar, o que transformou o local em que se realizaria em um campo de batalha, e outros grupos. O Stiff Little Fingers já havia lançado seu primeiro single, com Alternative Ulster, revelando que em Belfast tinha muito mais que bombas e grupos paramilitares.

O primeiro compacto da Good Vibrations foi Big Time Number One, do Rudi, que saiu em abril de 78, Apesar de ter mandado cópias promocionais para rádios e revistas do Reino Unido inteiro, a repercussão desse lançamento foi zero. Depois seguiram-se singles do Victim e do Outcasts.

Então em setembro, sai o EP Teenage Kicks do Undertones, banda que a princípio nem Hooley queria gravar. O fato é que o disco foi ignorado até cair nas mão de John Peel, que ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que, inusitadamente, o tocou duas vezes seguidas, algo que jamais acontecera em seu programa (e, muito provavelmente, em toda a história da BBC).

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Aí, nosso herói deu uma grande prova de integridade. Na manhã seguinte, a Sire Records procurou a banda para contratá-los. Eles aceitaram mas queriam Hooley como empresário. Só que ele se recusou com o argumento de que não estava de saída de Belfast, pois queria ficar lá e colocar a Irlanda do Norte no mapa da música.

O êxito comercial do Undertones impulsionou a Good Vibrations, que em um espaço de dois anos lançou 15 compactos (incluindo cinco de bandas não irlandesas, uma delas, o The Bears, sobre o qual falarei em breve) e dois álbuns. Mas, para variar, Terry Hooley, além de muito honesto com as bandas, não tinha o senso comercial necessário para o ramo e não suportou uma das muitas crises econômicas vividas por seu país. A Good Vibrations fechou as portas em 1980. Ainda fez alguns lançamentos entre 81 e 83, mas já com muito mais dificuldades que no próprio início.

Nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, uma vez mais não resistiu à ferocidade do mercado e voltou a fechar. Uma boa contribuição para esse breve renascimento do selo foi uma frase de Kurt Cobain, quando passou por Belfast e foi hospitalizado: “Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records”. Em 2000, o selo reapareceu com um CD single do grupo Twinkle e um álbum (em CD) do Social Scum, chamado Ooops.

Depois de abrir e fechar umas quatro ou cinco vezes, em 2015, devido a problemas de saúde, Hooley encerrou de vez as atividades da Good Vibrations. Atualmente, faz palestras e apresenta-se como DJ.  Em 2012, a história do selo e de Hooley foi para as telas de cinema no inédito por aqui Good Vibrations: The Film, com direção de Glenn Leyburn e Lisa Barros D’Sa.

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Foto recente de Terri Hooley

Para conhecer um pouco do trabalho da Good Vibrations e o som de algumas das bandas mais importantes do punk norte-irlandês, baixe aqui a coletânea Good Vibrations Singles Collection, com faixas dos primeiros anos deste importantíssimo selo. Confira a discografia completa do selo no site irishrock.org

 

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