Wipers, a fantástica fábrica de clássicos punk

Concebido em 1977 pelo guitarrista e vocalista Greg Sage, o Wipers, sem exagero, está entre as melhores bandas da história do punk rock. Poucos grupos criaram um estilo tão próprio. E por que uma banda tão talentosa, com pelo menos um LP no rol dos dez melhores de todos os tempos, não ganhou fama e fortuna?

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A resposta é simples: por que Sage também é um dos caras mais autênticos em termos de conduta e princípios. Avesso a badalações e a qualquer tipo de auto-promoção, sempre acreditou que as pessoas poderiam ouvir e entender o Wipers mais profundamente se não associassem a banda aos estereótipos tradicionais do circo do rock’n’roll e, (por que não?) do punk também.

A ideia original de Sage era fazer uma banda para gravar 15 álbuns em 10 anos, sem fazer turnês ou qualquer tipo de promoção. Isso também manteria a imprensa longe da banda. “Eu vejo a música como arte e não como entretenimento. Com esse conceito em mente, eu penso na música como algo pessoal do ouvinte e não uma mercadoria”, disse Sage em uma entrevista.

Apesar de ser considerado punk desde o início (evidentemente pela agressividade do som e pela atitude anticomercial), Sage jamais reivindicou qualquer rótulo para o grupo, mas também nunca se preocupou com isso. Ou seja, sempre cagou para o que diziam do Wipers. Para piorar as coisas para os rotuladores de plantão, o primeiro LP do grupo, Is This Real? (1979), é realmente um clássico com todas as características do que se convencionou chamar punk rock.

Mas no segundo álbum, Youth of America, lançado em 1981, ainda que o som se mantivesse na mesma linha em termos de agressividade, Sage quebrou alguns tabus do punk rock, com músicas longas (a faixa-título tem exatos 10min27s) e uma guitarra bem trabalhada. “E agora? Que porra é essa?’ Devem ter pensado alguns críticos.

Tocar com um cara desses não deve ser lá muito fácil. Assim, o Wipers sempre foi um trio. No início, com Sage mais o baixista Dave Koupal e o batera Sam Henry. Essa formação foi responsável pelos dois primeiros singles, Better off Dead (1979), com quatro músicas gravadas em quatro canais, e Alien Boy (1980). O primeiro foi lançado pelo selo Trap Records, do próprio Sage, e o segundo, com a música-título mais três retiradas de uma demo tape, saiu sem a permissão da banda, pelo selo Park Ave.

A arte do punk rock

wipers-coverSage, Koupal e Henry também foram os responsáveis pelo álbum Is This Real?, com seus 12 clássicos punk. Nenhuma faixa é dispensável. Desde a abertura com Return of The Rat, no melhor estilo UK Subs, até a quase introspectiva Wait a Minute, não dá para ficar indiferente ao som dos caras. Gosto muito da batida de Up Front, que se fosse gravada por uma banda inglesa de Oi! tornaria-se hino. Outras faixas inesquecíveis são Is This Real?Tragedy. E ainda tem D-7, regravada pelo Nirvana a exemplo de Return of the Rat (em 1991, Kurt Cobain financiou o álbum-tributo 14 Songs for Greg Sage and The Wipers).

Já no segundo LP, Youth of America, o baixo ficou com Brad Davison, mas Koupal tocou em algumas faixas, e a bateria com Brad Naish. O disco é bem mais lento, com seis faixas apenas. Mas nem por isso menos original e genial. Só que foge dos estereótipos do punk. Essa foi também a formação que apareceu no terceiro e último LP da primeira fase do Wipers, Over the Edge (1983), em que o grupo retoma o estilo do primeiro, mais punk e menos experimental, além de as letras terem adquirido um tom mais politizado. Clássico também.

Depois deste disco, o grupo deu um tempo e, em 1985, Sage lançou um álbum solo (muito bom por sinal), Straight Ahead, no qual só não toca bateria. Ainda nos anos 80, o Wipers lançaria mais três LPs – Land of the Lost (1986), Follow Blind (87) e The Circle (88) , todos de excelente qualidade (vale a pena procurar), embora já sem a genialidade dos três primeiros.

Nestes discos Brad Naish deu lugar a Steve Plouf. No final da década de 80, o grupo foi dado como acabado, mas em 1993 ressurgiu com o LP Silver Sail, em que não há quase nenhum traço da banda, então cultuada. Três anos depois, o Wipers lançou mais um LP, chamado The Herd, neste sim, o grupo retoma a fúria e o peso dos anos 80.

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Já em 1999, sai o que seria, segundo o próprio Sage, o último (e ótimo) disco do grupo: The Power in One. Portanto, Sage não conseguiu que o Wipers lançasse 15 LPs em 10 anos. Foram “apenas” nove em duas décadas. Mas, com os merecidos descontos, a missão foi cumprida.

Baixe aqui o fantástico Is This Real? e me diga se tenho ou não razão.

Curiosidades

  • O envolvimento de Greg Sage com a música começou ainda na infância, já que seu pai trabalhava em uma fábrica de discos e ele acompanhava todo o processo de fabricação, pelo qual ficou fascinado, a ponto de passar horas observando em um microscópio os sulcos dos discos.
  • A partir do segundo LP, Sage usou sua experiência e obsessão por técnicas de gravação para produzir tudo o que o Wipers gravou e também seus discos solos: Straight Ahead (1985), Sacrifice (for love) (1991) e Electric Medicine (2002).
  • O baixista Brad Davidson, após deixar o grupo, mudou-se para Londres e já fez diversas colaborações com o Jesus & Mary Chain.
  • Em 2001, Sage, através de seu próprio selo, a Zeno Records, remasterizou (sozinho) os três primeiros LPs, adicionou diversas faixas bonus e lançou um box set com três CDs. A história da primeira fase da banda está toda nessa caixa. Sinceramente, prefiro as mixagens originais, mais pesadas.
  • A influência do Wipers nas bandas rotuladas como “grunge” é notável. Além de Cobain ser um fã declarado de Sage (inclusive no comportamento anti-star), outras bandas deste estilo gravaram músicas do Wipers, entre elas o Hole. Teve até gente que confundiu o grupo como parte da cena grunge…

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