Blitzkrieg Bop, ramoníacos do norte da Inglaterra

Uma banda chamada Blitzkrieg Bop e cuja música mais famosa tem o título de Let’s Go. “Mais um clone dos Ramones” é o primeiro e mais natural julgamento que vem à cabeça. Não é bem assim. Apesar do nome ter sido realmente inspirado no clássico do grupo novaiorquino e de fazer o velho e bom punk rock, genialmente primitivo e com pouquíssimos acordes, as semelhanças param por aí.

O Blitzkrieg Bop foi um grupo que esteve na ativa durante a fase mais fervente do punk no Reino Unido, mas não eram de Londres e sim de uma região no norte da Inglaterra chamada Teeside. Este pode ter sido um dos fatores que contribuíram para que a banda não ganhasse a fama como outros de seus contemporâneos. Apesar de a história do grupo remontar a 1974, o BP propriamente dito começou em 77 e durou até por volta de 79. Nesse período lançaram três singles e chegaram a ficar relativamente bem conhecidos.

Adamanta Chubb

Em 1974, quatro garotos de saco cheio da monotonia da vida em Teeside, uma área urbana e bastante industrializada que reúne pelo menos sete cidades, entre as quais Middlesbrough, resolveram montar uma banda de rock. Algo muito comum por lá, como visto nas histórias de outras bandas postadas aqui.

O grupo recebeu o nome de Adamanta Chubb, personagem do livro O Senhor dos Anéis, e era formado por Alan Cornforth (batera), Kevin McMaster (voz e guitarra), Stephen Sharratt (guitarra) e Mike “Duck” MacDonald (baixo). Pouco depois de começarem a ensaiar, Mike saiu e foi substituído por Damien “Dimmer” Blackwell. E, já em 75, John Hodgson se junta ao Adamanta, que precisava de alguém para compor, pois até então só fazia covers.

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John era um músico de certa experiência – estava no circuito desde 1966 – e entrou para o grupo como tecladista e compositor. Apesar de terem crescido um pouco com o novo integrante, não conseguiram muita coisa e não demorou Kevin e Stephen desistiram. Com isso, a banda se tornou um trio provisoriamente com Alan, John e Mike.

Em 76, porém, depois que John resolveu dar um tempo para tocar em uma banda de soul music (chamada Erection) em que poderia fazer uma graninha, o Adamanta Chubb quase deixou de existir. Depois de alguns meses de inatividade, Dimmer começou a remontar o grupo, que voltou definitivamente, já no início de 77, com ele na guitarra, John na voz e nos teclados, Mick Hylton no baixo e Alan na batera. Mas ainda faziam um som mais voltado para o hard rock, com um repertório quase totalmente de covers.

A grande virada e o fim

Na virada de 76 para 77, o punk começara a se espalhar e John Hodgson, especialmente, estava curtindo muito o que rolava mais ao sul. Assim, iniciou uma campanha interna para que o Adamanta entrasse por esse caminho. De início, os demais integrantes relutaram bastante, mas aceitaram incluir alguns números punks no repertório e passaram a fazer covers de The Clash, Eddie and The Hot Rods, Sex Pistols, Adverts e outros.

Não demorou para perceberem que o “momento punk” do show agradava mais o público que, àquela altura, estava bastante influenciado pelas novas ideias propostas pelo punk. Além disso, o Adamanta há algum tempo tentava aparecer e com o som que faziam normalmente estava difícil. A simplicidade do punk seria um caminho bem mais fácil para eles.

Blitzkrieg Bop6

Aos poucos passaram a ter um repertório predominantemente punk e, em maio de 77, mudaram o nome da banda para Blitzkrieg Bop. Outra mudança foi a entrada de Ann Hodgson (apesar do sobrenome, não era parente de John) como guitarrista e Mick Hylton no baixo. Também passaram a adotar pseudônimos. John passou a ser Blank Frank, Alan se tornou Nick Knoxx, Dimmer adotou Fred Fret (depois, Telly Sett), Ann virou Pat Pussy (depois, simplesmente Gloria) e Mick substituiu seu sobrenome por “Sick”. Também começaram a compor material próprio e a pensar em gravar discos, uma vez que o espírito DIY facilitava bastante sem a exigência de grandes produções para serem ouvidos.

Ainda naquele maio de 77, aconteceria outro fato decisivo para o BP e a cena punk no norte da Inglaterra: um show do Clash em Middlesbrough. Até então, nenhum dos “grandes” nomes do punk que faziam tremer o Reino Unido havia tocado na região de Teeside. Foi a primeira vez que os vários grupos e pequenas gangs punks do norte da Inglaterra puderam se reunir em um único local e descobrirem-se uns aos outros, e também que havia várias bandas por lá, inclusive o Penetration, que já era razoavelmente conhecido. Como acontecia em várias outras cidades europeias, sempre que uma banda do porte do Clash tocava, a cena se agitava e o punk se espalhava. Era como um vírus.

Depois do que viram, John, Mick e Alan chegaram a um consenso: o Blitzkrieg deveria se tornar definitivamente uma banda punk e Dimmer seria dispensado por não ser a favor disso (inclusive, era o único dos quatro que não cortara o cabelo e nem assumira o visual punk). E a decisão foi certeira, pois logo começaram a ser notados como uma das poucas bandas punks de Teeside e um jornal local, o Evening Gazette, publicou uma matéria de página inteira com eles.

Totalmente imersos na cena punk, John e Mick decidiram também fazer um fanzine, ao qual chamaram Gabba Gabba Hey, em mais uma alusão aos Ramones. O passo seguinte seria o lançamento do primeiro single, com três faixas (Let’s Go, 9 Till 5 e Bugger Off) gravadas em um pequeno estúdio de Newcastle, em quatro horas.

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O compacto saiu pelo selo Mortonsound, teve uma tiragem de 500 cópias e foi comentado em um artigo morno no Sounds e em outro, altamente favorável, no NME, os dois principais jornais de música da Europa na época (o Sounds não existe mais). Com isso, chamaram atenção de distribuidores de discos que foram atrás deles para colocar o compacto nas lojas, uma vez que a procura por discos punks era enorme, mas não existiam lançamentos suficientes para atender a demanda. Era um momento em que tudo que fosse rotulado como punk venderia.

Mas os integrantes do Blitzkrieg Bop não podiam viver de música, todos tinham seus empregos e não arrumaram ninguém para gerenciar a carreira (era tudo na base do amadorismo mesmo). Assim, perderam muitas oportunidades de ficarem ainda mais conhecidos no meio do turbilhão punk.

Mesmo assim, entraram em acordo com a Lightning Records, selo independente que estava à procura de grupos novos, para regravarem Let’s Go e mais duas faixas (Life Is Just A So-So e Mental Case) para um segundo compacto, lançado ainda em 77. Nesse meio tempo, Gloria deixou a banda e foi substituída por Ray “Gunn” Radford.

Pouco depois, ainda lançariam a terceira bolacha, com (You’re Like A) U.F.O. e Viva Bobby Joe. Então, foram convidados, ao lado do Eater, para abrirem os shows do Slaughter & The Dogs na fracassada turnê Do It Dog Style, que não chegou ao final. Desiludido, Ray decidiu sair e foi substituído por Mickey Dunne, que adota o apelido “Bert Presley”.

Folder

O som também mudaria, como estava acontecendo com a maioria das bandas punks em 1978, para uma pegada mais comercial ou “new wave”, embora continuassem a tocar no circuito punk. Já quase no fim daquele ano, uma nova mudança na formação: sai o baixista Mick Sick e entra Graham “Kid” Moses.

Já no início de 1979, com o punk declarado “morto” na Inglaterra, Blank Frank e Nick Knoxx, que voltou a ser Alan Cornforth, decidem sair e vão para o Basczax, grupo que tinha uma proposta mais pos-punk. Foi o tiro de misericórdia no Blitzkrieg. Em 1994 e 1999 o grupo ainda faria algumas apresentações isoladas. Recentemente John Hodgson disponibilizou materiais raros de sua carreira com o Basczax e o Fast Cakes. O download é gratuito e tem muita coisa interessante. Clique aqui.

Baixe aqui a coletânea Top of the Bops, com os três compactos mais faixas ao vivo e de demo tapes do Blitzkrieg Bop

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