Male: outra pedra fundamental do punk alemão

O Male está entre as pedras fundamentais do punk germânico, junto com o Big Balls and The White Idiot, e o The Neat, de Dortmund. Formado no final de 76, em Düsseldorf, costuma ser apontado como o primeiro grupo realmente punk (seja lá o que isso signifique). Já que é assim, vamos falar sobre punk um pouquinho.

Um parênteses

Foram muitos os “pioneiros” do punk. Desde os anos 50, uma parcela considerável de jovens desempregados e sem perspectiva estavam à solta nos médios e grandes centros urbanos, especialmente na Europa e nas Américas. Por todo lado havia um sentimento de revolta que acabou encontrando na música (assim como na “moda” e outras formas de arte) uma válvula de escape. E o rock’n’roll logo se tornou a trilha sonora catalizadora de tudo isso.

No entanto, por volta de 1974 ou 75, o rock já não era porta voz desse sentimento contestador, uma vez que já estava totalmente absorvido pela indústria cultural. A rebeldia das décadas anteriores estava devidamente deglutida, digerida e expelida. A grandiosidade dos espetáculos, acompanhada de milionárias gravações de álbuns (por mais que tenha revelado bandas e músicos geniais), tornara o rock distante para grande parte da juventude. A realidade das ruas era outra.

“Então, foda-se o mainstream”, alguém disse em algum lugar em algum momento.

Aí foi que a molecada sem perspectiva reapropriou-se do velho e bom rock’n’roll, deu-lhe nova roupagem e BUM!, surgia o punk rock. Curioso é que este também foi deglutido, digerido e expelido pelo “mercado”, embora exista também no “underground”…

Contra a corrente

Male_PlastikhosenDe volta ao que interessa, o Male era Jürgen Engler (vocal e guitarra), Bernward Malaka (baixo) e Stefan Schwaab (guitarra). O trio estudava na mesma escola e tiveram contato com o punk inglês quase ao mesmo tempo. Engler, através de um artigo de jornal mostrado por seu pai, enquanto Schwaab e Malaka ouviram Eddie & The Hot Rods e Sex Pistols no rádio. Decidiram então que era aquilo que queriam fazer. Depois, convidaram Claus Ritter para a bateria.

As primeiras apresentações foram em escolas locais. Com letras politizadas, a mensagem do Male estava associada também ao cotidiano, às angústias da adolescência. Opressão policial, censura e consumo são alguns dos temas que aparecem nas letras do Male (e de trocentas bandas do mundo todo na época).

Apesar de ter surgido em 76 e terem feito algumas apresentações em 77, o Male só chamou a atenção do restante do país em 78, quando o punk já se disseminara como um vírus pelo paneta. Em vinil, o grupo só fez o primeiro registro de 1979, com o LP Zensur & Zenzur, este sim, sem qualquer dúvida, o primeiro álbum punk com letras totalmente em alemão (até então, apenas alguns compactos haviam sido lançados no país).

male12Pode não ser um grande disco, um clássico instantâneo, mas vale pela importância histórica e tem faixas muito boas, como VaterlandPlanspiel e Polizei. Particularmente, acho o disco um pouco “frio” e “difícil” na primeira audição. Não é um som fácil de ser “deglutido, digerido expelido”

Logo após o LP lançaram também o single Clever & Smart / Casablanca, em que a influência do Clash aparece mais nitidamente, principalmente no lado b. Em 1980, o Male parecia estar no auge e tinha tudo para enfim tornar-se uma banda “grande”. Convidados para abrirem o show do Clash, em Berlim, tiveram uma exposição que jamais sonharam.male10

No entanto, a apresentação não saiu como planejada. Os técnicos de som do Clash teriam se negado a deixá-los usar a aparelhagem (na verdade, queriam dinheiro, como a banda não tinha…), conforme seria revelado anos depois por Engler. A apresentação foi quase inaudível para a plateia.

Foi a gota d’água. Após o concerto, que deveria ser o grande impulso para a carreira do Male, o grupo se dissolvia. “Já não era mais o meu mundo, eu queria fazer algo novo”, declarou Engler em uma entrevista ao jornal WZ. Na verdade, o Male passaria a se chamar Vorsprung e começou a fazer música eletrônica, com uma pegada bem experimental. Não deu certo e durou pouco.

Sempre à frente

A seguir, Engler e Malaka fundaram o Die Krupps, também de música eletrônica (que aliás sempre teve tradição em Düsseldorf, lar do Kraftwerk). O Die Krupps teve papel dos mais importantes na construção das bases para o que hoje é conhecido como “rock industrial”. No início, o som do Die Krupps era bem mais experimental, depois, passou a misturar as guitarras pesadas do heavy metal com os sintetizadores, algo comum hoje, mas revolucionário naquela época.

A importância do Male para o punk alemão pode ser medida nas palavras de Campino, vocalista do Toten Hosen, sem dúvida a banda punk mais conhecida daquele país e que no início, quando ainda era o “ZK”, abriu vários shows do Male: “Se não fosse o Male, talvez o Toten Hosen não existisse”.male

Baixe o histórico Zensur & Zensur e também a coletânea Grosseinsatz 1977-1994

Curiosidades

  • Logo na estreia, o Male queimou uma bandeira alemã no palco, o que acabou sendo um grande escândalo, afinal, estavam dentro de uma escola. Também o modo como se vestiam fez com que fossem marginalizados em Düsseldorf. Algo de que se orgulham até hoje…
  • Em um dos shows da banda em Berlim, em 78, na platéia estavam David Bowie e Iggy Pop, que acabou conversando com o grupo nos bastidores.
  • Um dos motivos do fracasso no show com o Clash, que acabou por motivar o fim da banda, foi não poderem passar o som antes da apresentação. Primeiro porque chegaram duas horas atrasados, por estarem bêbados, porque tiveram que esperar acabar um jogo de futebol…
  • Em 1990, Jürgen Engler agitou uma reunião do grupo que gravou quatro músicas antigas (Wie Bonnie und ClydeDie Ewigen VerlierierSirenen e Irgendwann…).
  • Uma nova reunião foi organizada para comemorar os 25 anos do Male, em 2002, quando fizeram shows em várias cidades alemãs. 
  • Bernward Malaka , depois de desentender com Jurgen Engler em relação aos rumos do Die Krupps, decidiu se aposentar da música, voltou à faculdade e tornou-se PHD em economia.
  • Engler nunca abandonou a música, porém, saiu da Alemanha e e foi para os EUA, onde reformou o Die Krupps e passou a trabalhar também como produtor, inclusive para grande estrelas, como Iggy Pop e Sly Stone. Em 2016, compôs a trilha sonora do filme Devil’s Domain, inédito por aqui.
  • Schwaab e Ritter, por sua vez, fundaram primeiro o Freunde der Nachten e, depois, o Alright Bros, também com som eletrônico. Depois, sumiram de cena.

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