The Lurkers, apenas o “Ramones inglês”?

The Lurkers foi uma das bandas mais importantes e mais conhecidas na época da explosão punk. Desde o início, o Lurkers sofreu com uma (talvez justa) fama de ser “o Ramones inglês”, ou a “resposta inglesa ao Ramones”, etc. Tudo porque a voz de Howard Hall era incrivelmente parecida com a de Joey Ramone e o som básico de três acordes que faziam, não muito diferente do que todos os punks do mundo inteiro sempre fizeram, lembra demais o quarteto novaiorquino. Eles nunca negaram essa influência, assim como do Faces (isso mesmo), Stooges, New York Dolls, Velvet, etc, bandas que cresceram ouvindo.lurkers5

Saindo das sombras

O Lurkers começou em 1976, em Londres, quando o guitarrista Pete Stride, convidou Manic Esso (Peter Haynes, então um baterista iniciante) e o baixista Nigel Moore para formarem uma banda que fizesse um som próprio, sem frescuras. O primeiro vocalista foi um garoto apelidado de Plug (nome real: Peter Edwards) que mostrou-se totalmente inadequado para a função e acabou tornando-se roadie. Em seu lugar, entrou Howard Wall.

Depois de alguns ensaios, fizeram a primeira apresentação abrindo para o Screaming Lord Sutch, lendário grupo de rock que fazia um som a la Stooges. Pouco depois da estréia, o Lurkers começou a ensaiar em uma loja da Beggars Banquet (na época ainda não era um selo, mas uma rede que vendia discos novos e usados), no bairro de Fulham – daí algumas biografias do Lurkers apontarem a banda como sendo deste bairro, mas na verdade, não é.

O gerente dessa filial da Beggars, Mike Stone, há algum tempo pensava em diversificar o negócio e já começara a produzir alguns shows. Antenado, logo percebeu que a procura por discos de punk rock era grande, mas a quantidade de títulos era muito pequena. Por outro lado, via aumentar o número de lançamentos independentes.lurkers4

Não demorou, fez a ligação e levou a ideia aos donos da rede – Martin Mills e Nick Austin – que aceitaram patrocinar o primeiro single do Lurkers. Nascia então o selo Beggars Banquet, que alguns anos depois se tornaria um dos maiores da Inglaterra (hoje é praticamente uma major).

Apesar de tudo ter dado certo depois, houve uma pequena resistência dos proprietários da BB em assinar com o Lurkers, principalmente porque eles não adotavam o visual de grupos como Sex Pistols, Generation X e outros. Pareciam roqueiros comuns e, para piorar, não tinham o mínimo senso de profissionalismo. No fim, concordaram em lançar o disco, como Mike Stone queria, mas sem contrato!

No auge

Antes de gravar o single, Nigel resolveu sair para formar sua banda, o Swank, com um som nada a ver com o Lurkers. Em seu lugar entrou Arturo Bassick (nome verdadeiro: Arthur Billingsley). Já era 77 e o compacto com Shadow Love Story acabou sendo muito bem recebido. Logo em seguida, mais um single, com as faixas Freak Show Mass Media Believer. Os dois singles foram os primeiros discos da Beggars Banquet.

O Lurkers também participou do primeiro LP do selo, a coletânea Streets, com a faixa Be My Prisoner. Àquela altura, já se tornara uma das bandas mais comentadas da cena londrina, inclusive com um público fiel (a maioria moleques de Fulham), que acompanhava o grupo onde quer que fosse. Outro fator que ajudou o Lurkers a ganhar popularidade foi terem participado de diversas Peel Sessions, na época um dos programas mais ouvidos do rádio inglês.lurkers6

Como as grandes gravadoras estavam loucas à procura de novos Sex Pistols e Clashs, a Beggars Banquet resolveu enfim dar um contrato ao Lurkers e produzir o primeiro LP. Antes, porém, Arturo resolveu sair da banda para formar o Pinpoint, grupo em que poderia colocar suas idéias, mais sérias. As músicas do Lurkers eram na maioria de Pete Stride e tratavam de temas mais pessoais, possuíam uma boa dose de humor e tiradas que hoje seriam consideradas “politicamente incorretas”. Tudo bem distante de qualquer padrão político-ideológico. Exatamente o contrário do que Art queria (Mass Media é uma música dele e, não por acaso, a letra mais “séria” gravada por eles até então).

No lugar de Art, entrou o ex-The Saints Kim Bradshaw. Embora tenha contribuído com uma certa evolução musical, nos bastidores as idéias de Kim não batiam com as do restante da banda. Basicamente a divergência era que os três Lurkers eram rapazes suburbanos que só queriam fazer um som louco e divertir-se bebendo todas, enquanto Kim havia saído da Austrália para vencer no showbusiness. Um músico profissional de certa experiência que não entendia as atitudes despretensiosas daquele “bando de lunáticos”. O namoro durou apenas alguns shows e antes mesmo de entrarem em estúdio para gravarem o já esperado LP, Kim também saiu. E como o bom filho a casa torna (que chavão de merda seu Strongos!), um arrependido Nigel Moore o substituiu.

Em janeiro de 78, saiu o terceiro single, com a clássica Ain’t Got a Clue e a sarcástica Ooh! Ooh! I Love You, que teve ótima repercussão (chegou a figurar entre os 20 mais vendidos da parada independente) e ajudou a apressar a gravação de Fulham Fallout, disco que mostra o grupo em plena forma e tem lugar garantido na lista de clássicos do punk.

lurkersA referência ao bairro no título do LP – na verdade, uma homenagem aos seguidores da banda – costuma reforçar a equivocada convicção de historiadores do punk de que o Lurkers é daquela região londrina.

Com o álbum, o Lurkers passou a tocar para públicos maiores e a ser a banda principal, não mais de abertura. Entra 1979 e sai mais um grande single, com Just 13 Countdown. Com a moral em alta junto à gravadora, foram para os EUA para gravar o segundo LP. Depois de muitos percalços na terra do Tio Sam, finalizam God’s Lonely Men.

O disco não tem o nível de agressividade do primeiro, consequência óbvia de uma natural evolução musical e uma produção mais cuidada. A bolacha mostra um Lurkers mais rock’n’roll, mas ainda uma banda suburbana, sem pretensões de conquistar o mundo. Até hoje tenho dúvidas se gosto mais desse ou do primeiro. Considero os dois grandes clássicos do punk setentista.

Ainda em 79, o Lurkers passou a contar com mais um guitarrista: “Honest” John Plain, ex-The Boys. Como quinteto gravaram o excelente single New Guitar in Town / Little Ole Wine Drinker. Infelizmente este single foi o último da primeira e mais original fase da banda.

Novos rumos, mas sempre punk

Em 1980, a cena punk estava bem mudada, com o HC predominando. Por outro lado, a Beggars Banquet, entusiasmada com as vendas milionárias de Gary Numam, deixou a banda de lado. Já cansados e, como Pete Hayne afirmaria em seu livro, God’s Lonely Men, que conta a história do grupo em detalhes, “sentindo que o recado já estava dado”, decidem dar um fim ao grupo.

lurkers3Assim terminou a primeira fase do Lurkers. Depois disso, Mike Stone finalmente fundou seu selo, a Clay Records, sendo responsável pelo lançamento de bandas como Discharge e GBH. Fez história e muito dinheiro, mas não se esqueceu dos velhos amigos e incentivou o Lurkers a reformar.

No retorno, Howard Wall foi substituído por Mark Fincham e Arturo Bassick reassumiu o baixo, com Stride e Esso. Essa formação lançou o pesado, mas não tão criativo, This Dirty Town. Pouco depois, mais um fim, para novo retorno em 1987, patrocinado pelos alemães do Toten Hose. Só que desta vez, apenas Arturo do velho e bom Lurkers estava disposto a voltar à estrada.

Deste então, com várias formações, Arturo e o “novo” Lurkers lançaram mais de uma dezena de álbuns e singles. Apesar de não ter mais a originalidade dos anos 70, principalmente pela ausência de Pete Stride, Howard Wall e Esso, que seguiram caminhos diferentes, pelo menos a banda manteve-se fiel ao som pesado.

Baixe Fulham FalloutGod’s Lonely Men e o Singles Collection (com todos os compactos lançados entre 77 e 99), para conhecer (ou relembrar) a primeira fase desse clássico punk.

Curiosidades

  • Na fase embrionária do grupo, Pete Stride e Esso frequentavam um pub chamado Coach & Horses em Ickenham, zona suburbana de Londres. Um outro frequentador do local, um mineiro (de mina de carvão inglesa, não de MG!), quando ficava bêbado costumava chamá-los de Lurkers (mais ou menos algo como “espreitadores”), por ficarem sempre meio escondidos no bar. Daí saiu o nome da banda, que por pouco não se chamou The Chains!
  • A saída de Kim Bradshaw pouco depois de entrar no lugar de Arturo rendeu uma troca de farpas via imprensa musical. O ex-Saints afirmou que foi chutado do grupo devido à ciumeira de Pete Stride, já que ele (o australiano) começara a compor músicas melhores que as dele. Stride, por sua vez, com o aval dos demais integrantes, disse que o motivo foi mesmo o comportamento “certinho” e profissional de Kim fora dos palcos. “Ele parecia um homem casado”, afirmou Stride ao NME.
  • O (péssimo e nojento) costume dos punks dos primórdios em dar uma chuva de cusparada nas bandas rendeu uma internação por suspeita de meningite a Howard Wall, em 79.
  • O “novo” Lurkers já veio pelo menos cinco vezes ao Brasil (1996, 2001, 2002, 2004 e 2009). A passagem de 2001 rendeu um CD ao vivo, On Heat, gravado no já saudoso Hangar 110 .
  • Em 2008, Pete Stride,  Peter “Esso” Haynes e Nigel Moore voltaram a tocar juntos sob o nome God’s Lonely Men (GLM) e lançaram o pesado Chemical Landslide. Em 2016, retornaram ao estúdio mais uma vez e gravaram o álbum The Future’s Calling, sob o nome The Lurkers – GLM. Assim, é mais uma banda que tem duas formações diferentes em atividade, como aconteceu com o Sham 69.

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