Subhumans, o punk político radical do Canadá

 

“Garota, eu e você vamos lutar contra o mundo”
Se ela acreditar nisso, ela acreditará em tudo o que lhe disserem
“Eu nunca vou te abandonar, não até que as montanhas desapareçam”
Se ele acreditar nisso, mostra que tem um pouco de confiança demais

Ela é nada para ele, Ele é nada para ela
E ambos são menos que isso pra mim
Ambos tinham uma mentira por trás do sorriso
Jurando cultivar um sonho

Homens de negócio e trabalhadores se ajudam para construir seus caminhos
Se você acredita nisso, olhe à sua volta e faça as contas do que eles pagam
O governo vai ajudá-lo, vai proteger os velhos e salvar os pobres
Você tem de acreditar nisso, até que a polícia bata em sua porta

Você é nada para eles
Eles são nada para você
E ambos são menos que isso pra mim
A caveira e o emblema
São uma mentira por trás do sorriso
Usados contra os fracos e sem poder

Eu sou um herói, eu sou o líder da multidão
Para chegar a fama só preciso de uma máquina que me faça soar alto
Para onde eu levo vocês? Por que vocês não vão por conta própria?
Se vocês acreditarem em mim, um dia os deixarei sozinhos

Eu sou nada pra vocês
Vocês são nada pra mim
E menos do que nada é o que quero ser
Barulho e confusão
Sinto nojo por trás de meu sorriso
Nojo de todos as caras que vejo
Tenho nojo de todas as caras que vejo
Tenho nojo de todas as caras que vejo

A letra acima é uma tradução livre da música Behind My Smile do Subhumans, banda punk canadense que começou na década de 70. Não a coloquei só porque é muito legal, mas também porque foi a primeira música deles que ouvi, lá por 81 ou 82, quando comprei uma coletânea chamada Vancouver Independence. Chapei com o som e a letra.

Depois fui atrás de outras coisas deles e também adquiri o LP Incorrect Thoughts. Um clássico. Preste atenção em faixas como War In The Head We’re Alive. Aliás, tudo o que eles gravaram é de extrema qualidade. Para completar, os membros do grupo – tal qual o homônimo inglês (será carma?) – eram (e são) todos militantes políticos, o que fez do Subhumans uma das principais bandas punk canadenses, ao lado do D.O.A.

Primórdios

Subhumans e DOA têm muito mais em comum do que serem ambos canadenses. Gerry Hannah, baixista do Subhumans, e Joey Shithead, fundador do DOA, são amigos de infância e se iniciaram juntos no mundo da música e da política. Nos anos 70, eles e outros amigos moraram em comunidades no campo, como faziam muitos hippies.

A diferença é que não eram da turma da paz e do amor e causavam problemas com a vizinhança. Mas o essencial desta época é que formaram suas primeiras bandas. Nenhuma vingou, mas as experiências mostraram que o que eles queriam mesmo era fazer um som.

O primeiro show que conseguiram foi em 1975, como The Ressurrection. Tocaram apenas covers de Beatles, Black Sabbath e outros. Só que como era num salão comunitário do interior, em um evento extremamente familiar, depois da quarta música tiveram de se retirar.

Nessa época, viviam em uma localidade chamada Cherryville, na região das Montanhas Monashee. No Canadá, isso quer dizer que era bem longe de tudo. Depois de muitos problemas com a vizinhança e a polícia, claro, além da pouca grana e do inverno rigoroso do local, resolveram retornar a Vancouver. Junto de Kent Montgomery e Brian Goble fundaram um grupo chamado Stone Crazy, com o qual fizeram algumas apresentações em universidades.

Por volta do final de 1976 e início de 77, os caras começaram a ouvir Ramones, Igyy Pop e outros grupos ligados ao punk. Decidiram então entrar nessa praia. No entanto, Gerry ainda não havia se sintonizado com o som punk. O Stone Crazy acabou e Joey fundou o The Skulls, sem Gerry. Em seu lugar entrou o vocalista Lee Kendall (Ken Dimwit). Essa foi uma das primeiras bandas punks canadenses ao lado do The Furies, The Ugly, The Diodes e do Dishrags.

Depois de algum tempo, ainda em 77, o Skulls se mudou para Toronto. Gerry Hannah também estava por lá e já se entrosara com o punk rock. Então ele mostrou duas músicas para Joey, Brian e Simon. As músicas eram Slave to My Dick e Fuck You, que mais tarde fariam parte do repertório do Subhumans. Eles gostaram tanto que resolveram formar uma outra banda (sem acabar com o Skulls), que chamaram Wimpy and The Bloated Cows, com Gerry no baixo, Joey (Flab Jiggle) na bateria, Brian Wimpy no vocal e Simon na guitarra. A brincadeira durou pouco tempo e alguns meses depois não só o Wimpy como o Skulls acabaram.

Subhumans
O Wimpy and The Bloated Cows, uma das encarnações do “pre-Subhumans”

Nasce o Subhumans

Depois da “experiência” de Toronto, essa turma toda voltou para Vancouver. Brad Kunt, Brian “Wimpy” Goble e Ken “Dimwit” Montgomery (todos com passagem pelo The Skulls) formaram então o Subhumans. A primeira apresentação da nova banda foi no dia 1 de julho de 78, em um evento anarquista.

Gerry Hannah (que a essa altura adotara o apelido de Gerry Useless) juntou-se ao The Stiffs. Logo Brad deixou o Subhumans e Wimpy assumiu o vocal. Para completar a formação convidaram Gerry para o baixo e Mike “Normal” Grahan (também do Stiffs) para a guitarra. Em pouco tempo, o Subhumans tornou-se uma das bandas preferidas dos punks canadenses, com shows sempre lotados e bastante agitação.

As letras de conteúdo político e inteligentes, sustentadas por um som rápido, pesado e ao mesmo tempo com um ritmo excelente para pogar, conquistaram a molecada que em 78 já fazia de Vancouver uma das cenas mais quentes do hemisfério norte. Com a primeira formação, ainda em 78, o Subhumans lançou apenas um single. Obviamente um clássico com as faixas Death To The SickoidsOh Canaduh.

Pouco depois, Ken deixou o grupo e as baquetas ficaram com Koichi “Jim” Imagawa. Com ele, seguiram-se o lançamento do EP Subhumans, de 79, que contém as faixas Fuck YouSlave To My DickInquisition Day Death Was Too Kind; um single com as faixas Firing Squad No Productivity e o primeiro LP, Incorrect Thoughts.

Além disso, a banda fez várias turnês, que invariavelmente incluíam a Costa Oeste dos EUA, o que deu boa visibilidade à banda por tocar ao lado de bandas consideradas grandes, como Black Flag, Dead Kennedys, X e outras.subhumans2

Ação Direta

Quanto mais experiência ganhavam, mais politizados ficavam. E isso não se resumia a fazer punk rock. Todos os integrantes da banda tinham alguma ligação com grupos políticos, especialmente anarquistas e ambientalistas. Apesar de a maioria das letras serem de Brian, Gerry Hannah sempre foi o mais radical e isso ficou claro quando abandonou a banda no início de 1981. Motivo: engajou-se em um grupo político e ambientalista chamado Direct Action, que, como revela o nome, pregava ações diretas contra o sistema. Isso incluía sabotagens a indústrias poluidoras e fabricantes de armas, por exemplo.

Na real, era uma guerrilha urbana que tinha como alvo principal o capitalismo e a indústria armamentista. O grupo ficou conhecido na imprensa comercial como “The Squamish Five” e na alternativa como “The Vancouver Five”. Além de Gerry, os grupo era formado por Ann Hansen, Brent Taylor, Juliet Belmas e Doug Stewart.

Gerry Hannah

Determinados a provocar danos irreversíveis à cultura capitalista, acreditavam que apenas causando prejuízos físicos e materiais ao inimigo poderiam destruí-lo. Ou seja, o grupo transitava na tênue linha entre a militância e o terrorismo. Assim, realizaram alguns atentados a bomba (sem causar vítimas).

A primeira explosão foi contra uma usina hidrelétrica em Vancouver, na época ainda em construção, que os ambientalistas acusavam de provocar danos ao meio ambiente. Os prejuízos com essa explosão teriam passado de cinco milhões de dólares.

Mas o grande atentado mesmo foi conta a Litton, uma fábrica de componentes para fabricação de mísseis a serviço dos EUA. Outra explosão famosa foi contra uma locadora de vídeo especializada em filmes pornôs, acusada pelo grupo de exploração sexual.
Estes atos e o pico das atividades do grupo foram realizados no ano de 1982.

No entanto, em janeiro de 83, os cinco foram capturados pela polícia nas proximidades de uma pequena cidade chamada Squamish, daí o nome dado pela grande mídia. Gerry Hannah foi condenado a dez anos de prisão, dos quais cumpriu cinco. Atualmente, todos os integrantes do grupo estão livres.subhumans-Squamish-Five

O último suspiro

Mas o Subhumans não acabara quando Gerry saiu, apesar de Jim também ter deixado a banda (por motivos pessoais). Em seus lugares, entraram o baixista Ron Allan e o baterista Randy Bowman. A nova formação chegou a gravar um LP, chamado No Wishes, No Prayers, também muito bom.

No entanto, antes mesmo que o grupo chegasse a fazer shows com as músicas deste disco, veio o golpe fatal. Brian Goble, que era realmente o showman, o líder da banda (embora nem ele nem os demais integrantes assumissem o fato) aceitou o convite para ser baixista do D.O.A. que àquela altura se tornara uma das bandas mais conhecidas do universo punk. Assim, no outono de 1982, o Subhumans deixava de existir.

Em 1995, na onda da reuniões e retornos de bandas que haviam “acabado”, o Subhumans fez alguns shows com Gerry e Brian. Dez anos depois dessa breve reaparição, o grupo foi definitivamente reformado, com Gerry no baixo, Brian no vocal, Mike Graham na guitarra e e Jon Card (ex-DOA) na batera.

Ao contrário de muitos retornos, eles gravaram novo material e buscam mostrar que não estão presos unicamente ao passado, por mais glorioso que tenha sido. O álbum New Dark Age Parade comprova isso. Sem abandonar as raízes punk, se aventuram por canções e acordes mais melodiosos. Um som vigoroso e, principalmente, engajado, com letras profundas sobre toda a merda política, em uma mensagem eternamente atual (ou alguém espera mesmo que os políticos vão mudar?).

Baixe aqui Death Was Too Kind, (coletânea com todos os EPs da primeira fase, mais as duas faixas da coletânea Vancouver Independence). Aqui, o LP Incorrect Thoughts, e aqui o LP No Wishes, No Prayers

Curiosidades

  • O EP Subhumans, de 79, foi produzido por um tal e Bob Rock, o mesmo cara que depois trabalhou com Metallica, The Cult, Aerosmith, Mtley Crue, Offspring, etc.
  • Em 1983, o D.O.A. lançou um ep beneficente com o título Right To Be Wild para arrecadar fundos para a campanha “Free The Five”, que ajudou a pagar as custas judiciais do processo contra Gerry Hannah e seus companheiros. Uma das faixas do ep era Fuck You, verdadeiro hino do Subhumans.
  • Enquanto esteve preso, Gerry gravou dois álbuns de folk music (Sounds Of The Underground e Whereabouts Unknown). Hannah vive no campo e, em 2014, lançou seu terceiro álbum folk, chamado Coming Home.
  • Brian Goble também é chegado a um violão e já gravou canções folk, inclusive costuma fazer apresentações solos, em que toca folk e country music. O lance é que as letras são sempre de muita crítica social e política.
  • O baterista Ken Montgomery era irmão mais velho de outro batera: Chuck Biscuits, que além de ter participado da primeira formação do DOA, tocou em grupos como Social Distortion, Circle Jerks, Black Flag e Danzig. Em 1994, Ken “Dimwit” Montgomery morreu de overdose de heroína. Mais uma vítima da mais perigosa das drogas. Descanse em paz!
  • Após o “fim” (afinal, estão em atividade) do Subhumans, Mike Normal formou um grupo chamado Shangai Dogs, que lançou um Ep (Clanging Bell, 1983) e um LP (This Evolution, 1985). Ambos são raríssimos e o som é o que hoje se chamaria “progressive punk” (que será isso?). Na verdade, um som mais elaborado sem perder a alma contestadora e o peso.
  • Brian Goble deixou o DOA no final dos anos 90 e esteve presente na reunião da banda em 2006. Infelizmente, faleceu em dezembro de 2014, de um ataque cardíaco, aos 57 anos.
  • As ações do Vancouver Five e a vida de Gerry Hannah são tema do documentário Useless do cineasta Glen Sanford. Ann Hansen, que fazia parte do grupo, escreveu o livro Direct Action: memoirs of an urban guerrilla (Between The Lines Publishers).

 

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O Subhumans em 2006: Brian Goble, Gerry Hannah, Mike Graham e Jon Card

Um comentário em “Subhumans, o punk político radical do Canadá

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