A aventura do The Adverts

O Adverts foi uma das bandas pioneiras da cena punk inglesa de 1976-77. A história desse grupo, que considero um dos mais originais (até hoje não ouvi nenhuma banda parecida), começa em 1974, em Torquay, uma pequena cidade litorânea da região sul da Inglaterra, onde Tim Smith era vocalista do Sleaze, uma obscura banda de rock que não saiu dos pubs locais.

adverts2As coisas começaram a mudar quando Tim conheceu uma garota que tinha o apelido de Gaye Black e lhe pediu para que a ensinasse a tocar baixo. No verão de 75 o Sleaze acabou e a dupla resolveu fazer as malas e mudar-se para Londres com a firme intenção de montar uma banda.

Mesmo sem ainda terem encontrado os demais integrantes escolheram o nome: primeiro seriam os One Chord Wonders, depois, num bate papo, surgiu The Adverts, nome que ficou. Além de comporem algumas músicas, a dupla tornou-se frequentadora assídua de shows do Stranglers e dos Pistols.

Então resolveram colocar uma anúncio no semanário musical Melody Maker à procura de “um guitarrista especial, que não fosse especial”. Um tal Howard Boak respondeu ao anúncio e foi aprovado. No entanto, acabou por adotar outro apelido: Howard Pickup (“boak” é uma expressão do norte da Inglaterra para vômito, mas era difícil ter que ficar explicando isso toda hora).

Ao mesmo tempo, Tim resolveu tornar seu nome mais “artístico”: juntou o Smith, sobrenome mais popular da Inglaterra, com o do eletrodoméstico mais comum do país e tornou-se TV Smith. Howard foi o responsável por levar a banda a ensaiar em um estúdio (até então, Tim só sabia o que era ensaio em garagens e quartos de amigos, com aparelhagens tranqueiras).

O quarto elemento do Adverts foi Laurie Muscat, indicado por John Towe, baterista do Generation X. O batera, que também tocou com o Chelsea e ensaiava no mesmo estúdio, trabalhava com Howard em uma loja de discos. Desesperados, eles admitiram Laurie mesmo sem ouvi-lo.

Logo no primeiro ensaio descobriram que ele não sabia tocar porra nenhuma e pediram a Towe para passar uma noção a ele. “Ele era totalmente sem talento, então obviamente era a pessoa ideal para a banda”, conta TV em uma entrevista à revista Goldmine, em 1997. O batera adotou o apelido de Laurie Driver e não demorou a a aprender o básico. Ainda em 76 gravaram uma demo tape com cinco músicas e em pouco tempo estavam prontos para encarar um palco.

Em 15 de janeiro de 77 o Adverts fez sua estréia como banda de abertura para o Generation X, no lendário Roxy Club (claro que o amigo John Towe foi importante para conseguirem a “boquinha”). Logo de cara chamaram a atenção por terem uma mulher como baixista, o que era incomum no então ainda mais machista do que hoje mundo do rock’n’roll. E ainda por cima, bonitinha.

Tornaram-se quase que uma banda residente do Roxy, onde fizeram uma dezena de shows em cerca de três meses, Logo conseguiram lançar o primeiro single, pela Stiff Records. O compacto chamou a atenção não só pelo som, mas também pela capa, com o rosto de Gaye em super close. Apesar de ser considerada uma das melhores capas de discos punk por muita gente (inclusive o próprio TV Smith hoje admite tratar-se de um clássico), na época a banda torceu o nariz.

adverts1stPrimeiro, a própria Gaye ficou chateada, pois tinha verdadeira aversão a estrelismos. Considerava-se apenas mais uma integrante do grupo e que todos os quatro Adverts tinham a mesma importância. Ela tinha consciência de que estava naquela capa apenas por uma questão sexista e não buscava tal exposição, queria apenas tirar um som, não ser “musa”. E, segundo, a banda tinha feito uma sessão de fotos para aquela capa da qual todos participaram  e jamais imaginariam que um só deles apareceria.

Para promover o single, fizeram uma tour patrocinada pela Stiff, ao lado do Damned. Mas o vínculo com a Stiff estava comprometido, tanto pela controversa capa como pelo fato de o selo estar centrado no Damned. Como já tinham um empresário, Michael Dempsey (figura lendária do underground londrino, falecido em 1981), não demoraram a conseguir um contrato com um selo maior, a hoje extinta Anchor Records, que tinha ligações com a norte-americana ABC Records, do grupo Paramount. A escolha levou em conta também uma possível divulgação nos EUA, claro.

Antes de lançarem o segundo single foram convidados para uma Peel Session, mais tarde lançada em vinil. Isso tudo com menos de seis meses de existência! Em agosto de 77, saiu o segundo compacto com Gary Gilmore’s Eye Bored Teenagers, dois dos maiores clássicos do Adverts, que chegou ao 18º posto na parada de singles ingleses. O êxito ajudou o grupo a ser indicado para abrir uma série de shows de Iggy Pop em sua tour pelo Reino Unido. Um sonho para Gaye, fã declarada do agora “vovô do punk”. Dois meses depois da tour, em novembro, lançaram Safety in Numbers We Who Wait, sem a mesma repercussão do single anterior.

advertsDepois de quase um ano tocando direto e os três singles reconhecidamente entre os melhores de 77, estava na hora do álbum. Para a gravação escolheram nada menos que o consagrado estúdio Abbey Road. Antes do LP, porém, lançaram mais um single com No Time To Be 21 e New Day Dawning. Em fevereiro de 78, finalmente, chegava às lojas o clássico Crossing the Red Sea with The Adverts.

Após o lançamento do LP, shows, shows e mais shows. Como até então praticamente não haviam saído de Londres, iniciaram uma tour continental. No entanto, antes mesmo de completarem o giro pela Irlanda, Laurie foi atacado por uma hepatite e a excursão teve de ser interrompida. Fora de combate, o baterista foi substituído por… John Towe, que já não estava mais no Gen X. Mas o novo integrante não se adaptou e deixou o “cargo” após poucas apresentações. As baquetas passaram então para Rod Latter, ex-The Rings (tocou no The Maniacs também).

Depois da excursão pela Europa, os desentendimentos com a Anchor Records começaram. O grupo e Dempsey (o empresário) queriam tentar o mercado dos EUA, mas a ABC não acreditava no potencial das bandas punks inglesas e não quis lançar o LP, apesar de muitas cópias terem atravessado o Atlântico, e muito menos investir em uma turnê.

Assim, deixaram o selo e assinaram com a RCA. O primeiro single pela nova gravadora, lançado em novembro de 78, foi o excelente Television’s Over / Back From the Dead. A produção ficou a cargo de Tom Newman, o mesmo do chatíssimo Tubular Bells de Mike Oldfield. O single também marcou o inicio de uma parceria entre TV Smith e o tecladista Richard Strange, do Doctors of Madness, banda hoje classificada como “proto-punk”. Parecia o prenúncio de um grande trabalho.

O Adverts gastou praticamente oito meses para conceber o segundo álbum. Nesse meio tempo, o tecladista Tim Cross, que também trabalhara com Mike Oldfield entrou para o grupo. E só há uma palavra para definir Cast of Thousands: decepcionante. O disco não tem nada a ver com o primeiro. Sem energia, sem pegada e musicalmente pretensioso, mas claramente sem inspiração.

adverts-gayeEles não queriam gravar outro “Red Sea”, nem ter feito outro disco punk, tá certo, tinham esse direito, mas também não precisavam fazer algo tão fraco. Ignorado pelo público e pela mídia, o fracasso iniciou o fim ao grupo que também já estava dilacerado. Após alguns shows como quinteto, Howard Pickup simplesmente desapareceu e o Adverts ficou sem guitarrista. Em seu lugar entrou Paul Martinez. Depois, Latter também abandonou o barco e o irmão de Paul, Rick, ficou em seu lugar.

Ainda gravaram uma Peel Session, a quarta, em outubro de 79. Mas sem público, castigados pela mídia e ignorados pela RCA, fizeram uma última apresentação em 27 de outubro de 79, no Slough College. Howard Pickup morreu de câncer no cérebro, em 11 de julho de 1997.

Baixe aqui o Singles Collection

ADVERTS FACTS

  • O Sleaze, a primeira banda de TV Smith, chegou a gravar um LP por conta própria, do qual foram prensadas apenas 50 cópias, distribuídas para amigos e familiares. Uma das músicas deste disco, Listen don’t think, foi reformulada pelo Adverts e rebatizada como New Boys.
  • Gary Gilmore’s Eyes foi baseada em uma das mais tétricas histórias da época. Gilmore era um assassino norte-americano condenado a morte que pediu insistentemente para ser executado antes do tempo e que seus olhos fossem doados para transplante, já que “o coração não servia para nada”! Mas na época muita gente confundiu o personagem com Gary Gilmour, um famoso jogador de críquete.
  • Apesar de ajudar a atrair público e atenção da mídia, além de contribuir para que outras minas se aventurassem nos palcos, o fato de Gaye Advert ter se tornado uma espécie de musa punk atrapalhou um pouco a banda, sempre vista como o grupo da “baixista sexy”. Alguns tabloides chegaram a comentar que ela era a vocalista mais sexy de Londres. No máximo, ela fazia um ou outro backing volcal. O tom de voz de TV Smith realmente parece feminino, mas nas capas dos discos tinha os créditos… coisas da gloriosa imprensa musical!
  • O engenheiro de som de Crossing the Red Sea… foi John Leckie, o mesmo do aclamado álbum Dark Side of the Moon do “Shit Floyd”.
  • Gaye Advert foi convidada por Ari Up para ser uma das Slits, mas recusou, pois “preferia a companhia de garotos”.
  • No Crossing the Red Sea… original as faixas Gary Gilmore’s Eye New Day Dawning ficaram de fora e só foram incluídas no relançamento em CD.
  • TV Smith seguiu carreira solo e está em atividade (confira o site oficial). Gaye Advert, que mora com ele, aparece eventualmente em shows do companheiro, mas oficialmente retirou-se do mundo artístico. Laurie Driver e Rod Latter também não se envolveram mais com música.

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