Crass, revolução dentro da revolução

Yes that’s right, punk is dead,
it’s just another cheap product for the consumer’s head
Bubblegum rock on plastic transistors,
schoolboy sedition backed by big time promoters
CBS promote the Clash,
but it ain’t for revolution, it’s just for cash
Punk became a fashion just like hippy used to be
and it ain’t got a thing to do with you or me
Movements are systems and systems kill
Movements are expressions of the public will
Punk became a movement cos we all felt lost,
but the leaders sold out and now we all pay the cost
Punk narcisism was a social napalm,
Steve Jones started doing real harm
Preaching revolution, anarchy and change
As he sucked from the system that had given him his name
Well, I’m tired of looking through shit stained glass,
tired of staring up a superstar’s arse,
I’ve got an arse and crap and a name,
I’m just waiting for my fifteen minutes fame
Steve Jones you’re napalm,
if you’re so pretty why do you smarm?
Patti Smith, you’re napalm,
you write with you’re hand but it’s Rimbaud’s arm
And me, yes, I, do I want to burn?
Is there something I can learn?
Do I need a business man to promote my angle?
Can I resist the carrots that fame and fortune dangle?
I see the velvet zippies in their bondage gear,
the social elite with safetypins in their ear,
I watch and understand that it don’t mean a thing,
the scorpions might attack, but the system’s stole the sting
PUNK IS DEAD / PUNK IS DEAD / PUNK IS DEAD

A letra acima é de uma das músicas do álbum The Feeding of the 5.000 do CRASS, a primeira banda anarco-punk do mundo. Ela traduz o sentimento que levou o grupo fundado por Steve Ignorant (Steve Williams) e Penny Rimbaud (Jerry Ratter), em 1977, a radicalizar e mudar totalmente os rumos do punk rock inglês.

Como 99% das bandas da época o Crass começou sob influência da mensagem deflagrada pelos ícones punk de 1976/77. Steve era um grande fã do The Clash. Mas não demorou muito, percebeu que as coisas não eram bem assim. Depois do turbilhão e de toda a agitação da mídia em torno do punk, os próprios propagadores da revolução começaram a seguir a trilha cavada pelas estrelas do rock que tanto criticaram.

As palavras proferidas no palco eram esquecidas nas ruas. O Crass não só era contra isso, como passou a vivenciar a mensagem libertária que os ícones da primeira onda punk lançaram mas não colocaram em prática.

Muito mais que um grupo musical, o Crass passou a ser um conceito e lançou ideias que estão nas raízes do punk como é conhecido hoje. Não mudaram os rumos sozinhos, é claro, mas tiveram um papel relevante na introdução de ideais libertários no punk. Traduzindo: política radical.

crass5

Trajetória provocadora

Os primeiros passos do grupo foram dados com Rimbaud, um dos membros fundadores da Dial House, um squat situado em Essex, sudeste da Inglaterra, e Steve, frequentador do local. A dupla começou a ensaiar apenas com vocal e bateria, mas o barulho era obviamente abertos a todos, e sempre acabava com a participação de muita gente, seguido de grandes bebedeiras.

Aos poucos alguns componentes tornaram-se fixos e a formação se consolidou com as vocalistas Joy De Vivre e Eve Libertine (além de Steve), o baixista Pete Wright, os guitarristas N. A. Palmer e Steve Herman (logo substituído por Phil Free), com Rimbaud na bateria. Depois que o grupo começou a levar-se mais a sério, também tiveram papel fundamental o artista gráfico Gee Vaucher, que ocasionalmente ainda assumia os teclados, mais o cinegrafista e videomaker Mick Duffield. O engenheiro de som, John Loder, também era considerado um membro do grupo.

crass2As primeiras apresentações eram puro caos e ninguém tocava porra nenhuma. Nessa época fizeram alguns shows com o UK Subs, que Eve Libertine costuma lembrar como apresentações em que “o público dos Subs era o Crass e o do Crass, os Subs”.

Mas foi no lendário Roxy Club que os rumos da banda começariam a Mudar de verdade. Completamente chapados e sem condições de tocar, além da atitude anticomercial, acabaram expulsos do palco. Após o incidente decidiram levar-se mais a sério. Começava aí a nascer o anarco-punk.

Todos os integrantes e agregados ao Crass se aprofundaram na ideologia política e decidiram romper de vez com os estereótipos do mundo do rock’n’roll. Tomaram o conceito faça você mesmo (D.I.Y.) ao pé da letra, passaram a produzir seus próprios discos e organizar shows beneficentes, nos quais distribuíam panfletos em que divulgavam seus ideais.

Adotaram o negro como cor única das roupas e criaram um símbolo próprio. Mais do que isso, ajudaram a popularizar o hoje mundialmente famosos A dentro do círculo, símbolo do anarquismo. Antes do Crass divulgar o ícone massivamente em pixações e panfletos, ele aparecia apenas em alguns pouco livros anarquistas. Em pouco tempo o A tomou conta da cena punk e tornou-se o principal símbolo do “movimento”.

crass-9É verdade que o Sex Pistols já havia falado de anarquia, mas quase como sinônimo de caos. A diferença é que o Crass a considerava como um ideal político  que deve ser levado a sério. Mas, ao contrário de muitos anarquistas do passado, o Crass sempre propôs a “resistência pacífica”, a única arma que admitiam era a arte, traduzida por música, poesia, grafismos, pinturas, teatro, filmes e etc.

Por outro lado, se eram contra as armas, propunham uma música agressiva, especialmente nas letras. O primeiro LP, The Feeding of 5.000, de 1978, já saiu com uma polêmica e foi um cartão de apresentação da banda à Scotland Yard. O motivo? A letra de Asylum, considerada uma blasfêmia:

Asylum

I am no feeble, Christ, not me
He hangs in glib delight upon his cross, above my body
Christ forgive
Forgive?
I vomit for you, Jesus
Shit forgive
Down now from your cross
Down now from your papal heights, from that churlish suicide, petulant child
Down from those pious heights, royal flag bearer, goat, billy.
I vomit for you
Forgive?
Shit he forgives
He hangs in crucified delight nailed to the extend of his vision, his cross, his manhood, violence, guilt, sin
He would nail my body upon his cross, suicide visionary, death reveller, rake, rapist, lifefucker
Jesu, earthmover
Christus, gravedigger, you dug the pits of auschwitz, the soil of treblinka is your guilt, your sin, master, master of gore, enigma
You carry the standard of your oppression
Enola is your gaiety
The bodies of hiroshima are your delight the nails are your only trinity, hold them in your corpsey gracelessness, the image i have had to suffer
The cross is the virgin body of womenhood that you defile
You nail yourself to your own sin
Lamearse jesus calls me sister there are no words for my contempt, every woman is a cross in is filthy theology, in his arrogant delight
He turns his back upon me in his fear, he dare not face me
Fearfucker
Share nothing you christ, sterile, impotent, fucklove prophet of death
You are the ultimate pornography, in your cuntfear, cockfear, manfear, womanfear, unfair, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare
Jesus died for is own sins, not mine

O fato é que a empresa encarregada de prensar os discos, que seria lançado pela independente Small Wonder Records, recusou-se a fazê-lo com tal letra. A solução encontrada pela banda foi fazer o disco com uma faixa de dois minutos de silêncio, a que deram o título The Sound of the Free Speech.

Além disso, decidiram fundar a Crass Records para lançar seus próprios discos. O primeiro, obviamente, um single com a polêmica Asylum e Shaved Woman. Mais tarde, relançaram Feeding…. com a dita cuja em lugar do silêncio. Não demorou a surgirem os problemas. Protestos de entidades conservadoras levaram a polícia e outros órgãos responsáveis pela moralidade pública a recolherem o compacto das lojas e iniciar uma sistemática perseguição aos membros do grupo, que persiste até hoje (!).

Crass. Erics.copyEm 1979, o Crass lançou o segundo LP, Stations of the Crass, que se tornaria o disco mais vendido deles e que daria condições ao grupo de realizar inúmeras ações políticas, além de poder colocar em prática o projeto de lançar outros grupos que compartilhassem a ideologia anarquista. Ou seja, o Crass cresceu, a ideia que a primeira vista parecia quixotesca começava a adquirir proporções gigantescas. E isso também começou a a incomodar, inclusive a imprensa do Reino Unido, um dos alvos constantes da banda.

É impossível analisar ou considerar o Crass em termos unicamente musicais, mas Stations é um grande disco, uma tijolada. Não é música convencional, não é agradável em nenhum sentido e incomoda. Como deve ser um disco punk.

O terceiro álbum, Penis Envy, de 1981, foi uma resposta às críticas de que eram machistas. O que, absolutamente, não precedia. Na bolacha, apenas Joy e Eve cantam, enquanto Steve aparece nos créditos, mas não participante da obra. O disco é um manifesto feminista, e também um ataque às instituições repressoras da individualidade e da sexualidade. Musicalmente, o grupo passou a colocar elementos dadaístas, já presentes na arte gráfica e nos filmes que apresentavam em telões nos shows. Ainda punk, mas cada vez menos “rock”.

crass8Pouco mais de um ano após Penis Envy, saiu o não menos provocador álbum duplo Christ, the Album. No entanto, a ideia de fazer um trabalho mais conceitual, um pouco mais elaborado que os anteriores, mostrou-se um erro. Christ levou um ano todo para ser gravado, período durante o qual começou e terminou a Guerra das Malvinas.

Quando chegou às lojas, as mensagens do álbum soaram redundantes ante a uma outra realidade. Como bons libertários, assumiram que foi uma grande cagada ter demorado tanto na produção. Sentiram-se “tartarugas correndo contra coelhos”.

crass3Mais que isso, repensaram as novas estratégias adotadas e tentaram retomar o estilo dos primeiros anos, o que pode ser constatado nos compactos How does it feel to be the mother of a thousand dead e Sheep farming in the Falklands, bem como no quinto LP, Yes Sir, I Will, todos vigorosos ataques a Thatcher e os responsáveis pela Guerra das Malvinas.

Estes discos motivaram uma perseguição pesada por parte do partido de Thatcher. Mas o encarregado de comandar a ofensiva, um tal de Tim Eggar, acabou ridicularizado pela banda em um programa de rádio ao vivo, no qual provaram, que ele era um completo idiota, que mal sabia do que se tratava as ações da banda. Depois disso o partido de Miss Thatcher recomendou que se ignorasse as ações do grupo para evitar novas saias justas.

Deboche

1983 e 84 foram os anos politicamente mais agitados para o Crass, mas não por conta de nenhum disco e sim a uma fita sem uma nota musical sequer. Com um bom estúdio nas mãos, montaram uma fita com conversas comprometedoras entre Margareth Thatcher (imitada por Eve) e Ronald Reagan (na voz do ator John Sharian). A dupla simulou uma conversa com ameaça de uso de bombas atômicas e autossabotagem para justificar a Guerra das Malvinas.

A fita, enviada anonimamente às redações da grande imprensa mundial, ficou conhecida como Thatchergate. No entanto, além das redações, uma cópia do artefato foi parar na mão dos serviços de inteligência. Aí começou a ficar “bizarro”. A CIA e a Scotland Yard não demoraram a descobrir que era uma montagem, mas sem saber quem eram os “terroristas” que haviam feito o trabalho, não hesitaram em atribuir a autoria à KGB (ainda se vivia a Guerra Fria). Mas jornalistas do diário inglês The Observer, não se sabe como, foram mais espertos que a polícia e descobriram a verdade, que acabou ridicularizando a todos os envolvidos.

crass bbcA ação ridicularizou os serviços de inteligência e, indiretamente, os governos dos dois países. O incidente colocou os membros do Crass na grande mídia. Nenhum disco, nenhuma outra ação (e foram muitas ao longo dos sete anos de existência da banda) chamara tanto a atenção da sociedade.

Mas o xis da questão não era discutido, todos queriam saber quem eram aqueles malucos, não o que eles denunciavam com suas ações. Sempre autocríticos, começaram a bater as dúvidas sobre a validade do que faziam. Afinal, tinham conseguido chamar a atenção, mas não para sua causa e sim para o Crass, o “grupo de rock Crass”.

Sentiam-se como grandes estrelas de um espetáculo que criticavam. As contradições naturais da ideologia e do modo de vida e ação adotados por eles também começaram a aflorar. E, como previram no início, acabariam se dissolvendo em 1984, ano do título do livro de George Orwell, um dos inspiradores do grupo. Chegava ao fim uma batalha de sete anos, mas o punk já não era mais o mesmo.

Apesar de longo, esse post é apenas uma introdução ao que foi o Crass. Vale a pena procurar saber mais sobre o grupo. O livro The Story of Crass, de George Berger (Omnibus Press) é o mais indicado. Infelizmente, somente importado. Mas uma busca na internet sobre a banda e sobre o anarco-punk leva a páginas interessantes, como uma entrevista ao fanzine No Class http://www.noclass.co.uk/crassinterview.html, de 1982 ou 83.

Curta o barulho do Crass aqui: The Feeding of 5.000, Stations of the Crass, Christ The Album, Penys Envy e os singles do Crass

Curiosidades

  • O primeiro nome da banda, ainda embrionária, foi Stormtrooper. O nome Crass foi tirado da música Ziggy Stardust, de David Bowie (“The kids was just crass….”).
  • Como usavam pouquíssima iluminação, o que dificultava fazer fotos e filmes das apresentações do grupo, não há muitas imagens dos shows do Crass disponíveis.
  • Em 1979 apresentaram-se no festival Rock Against the Racism e receberam um cachê polpudo. Recusaram e pediram para os organizadores usarem a verba para a causa (luta contra o racismo). Mas a organização explicou que o dinheiro arrecadado era para as bandas, a “causa” era apenas um pretexto e restringia-se ao palco. Nunca mais voltaram, claro.
  • Uma das ações mais interessantes do grupo aconteceu em 1983, quando conseguiram que funcionários da Rough Trade, simpatizantes da causa, distribuíssem 20.000 flexi discs com a música Sheep Farming in the Falklands dentro de discos mais comerciais do selo. Assim, pessoas que normalmente não ouviriam o Crass poderiam conhecer pelo menos uma música e algumas idéias do grupo.
  • Um dos lançamentos da Crass Records foi o grupo islandês Kukl, que tinha como vocalista uma tal de Björk.
  • O grupo participou ativamente do movimento Stop the City, em 1983 e 84. Trataram-se de ações do Greenpeace, na época ainda não tão famoso e muito mais radical, que pretendiam parar Londres por 24 horas para realizar protestos contra atos do governo inglês e norte-americano. Estes movimentos são considerados precursores dos atos antiglobalização.
  • Após o final da banda, Steve Ignorant juntou-se ao Conflict, uma das melhores bandas hardcore dos anos 80. Depois formou o Schwartzeneggar e também participou do Stratford Mercenaires.
  • Eve Libertine gravou alguns discos ao lado de seu filho, o guitarrista Nemo Jones, e realiza performances sob o nome A-Soma.
  • Pete Wright fundou um grupo de performances artísticas chamado Judas 2.
  • Penny Rimbaud ainda compõe e apresenta-se como artista solo e faz colaborações, a maioria, com músicos de jazz. Em 2017, esteve no Brasil, a convite do coletivo Metal Punk Overkill.
  • Palmer, o primeiro a deixar o grupo em 84, retomou os estudos e saiu de cena.
  • John Loder manteve o Southern Studio em atividade e morreu em 2005, em consequência de um tumor cerebral. 

Sua opinião é importante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Send Back My Stamps!

Metal History Through Fanzines

Almanake da Nemeton Kieran

... falando um pouco de tudo...

Sequela Coletiva

Blog dos sequelados para postagem de idéias e impressões a respeito de praticamente tudo

PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS

A MÚSICA NOS MOVE!

The File Cabinet Of Curiosities

A Vernacular Culture Compendium (which may exceed a single file cabinet), presented by the Conglomerated League of Folklore Inquirists, Affiliate No. 67, under the Charter of the Int. Committee for Folkloric Knowledge, Enhancement, and Preservation.

Reclaiming History: An Archive of Black Hardcore and Punk

Photographs, Flyers, and Zine Clippings that Color Between the Lines of History

juveniledelinquentmusic

Hi NRG ROCK'N'ROLL!!!!!!!!!!!!!!!

Magic Pop

rock and roll media

PBPR

Paperback Punk Rock

The Coming Anarchy

Indian Anarchist Federation's Blog

Liberty and Anarchy

Anti-State, Anti-War, Pro-Market

Anarchy Action

Anarchy Action

What's So Special About Music Anyways?

Witty opinions on great music

Which Side Are You On? A History of Punk Politics

A Visual Archive of Punk-Related Socio-Political Events

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close