Lama, a fúria finlandesa

De volta ao gelado norte europeu, vamos falar sobre o Lama, um dos melhores (em minha inútil opinião, “o” melhor) grupos punk da Finlândia. Apesar de ser considerado parte da segunda (e mais produtiva) geração de bandas punks finlandesas, o Lama começou em 1977, em Puotila, na área suburbana de Helsinque. É certo que no início não tinham mais que umas poucas músicas e só foram se apresentar pela primeira vez em 1978.

 

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Os fundadores do Lama foram Epe e Eno, ambos guitarristas (depois, Epe assumiu os vocais e abandonou o instrumento). Essa formação embrionária tinha ainda um vocalista chamado Spiidy e o batera Hippo. Mas foi com a entrada de Charlie, um guitarrista que sabia tocar um pouco mais que Epe e Eno (que passou para o baixo) que o grupo começou a tomar forma, consolidada após a substituição de Hippo por Jere, bem mais consistente em termos musicais.

Em 1979, quando o punk rock “explodiu” na Finlândia, o Lama foi um dos expoentes dessa cena. Provavelmente a mais famosa nanda punk no país naquela época. Mesmo assim, o primeiro registro em vinil do Lama saiu apenas em 1980. O excelente Totuus Löytyy Kaurapuurosta, que significa “A verdade está na farinha de aveia”, com três faixas: além da que dá que título à bolacha, Buusi (Ônibus) e Raha (Dinheiro). Um clássico, com certeza.

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Hoje, milhares de bandas no mundo todo fazem o que eles fizeram, mas na época era assustadora a maneira rápida e agressiva como tocavam. Não se falava ainda em hardcore. A influência do Lama sobre outros grupos finlandeses deu uma cara única ao punk daquele país, que acabou sendo um dos berços do hardcore. Mas não consigo ver o Lama como HC, o som é mesmo algo como um elo entre o “punk 77” e o HC.

lama vailiaikainen_frontO segundo compacto saiu em 81, com as faixas Nimetön (Sem Nome), Ainoo Lajissaan (algo próximo de “Uma daquelas”) e Jeesukset (Jesus no plural, ou “Jesuses”). No mesmo ano, gravaram outro single, com quatro faixas: Väliaikainen (Temporário), Paskaa (Merda), Anarko Marko (?) e Penisten Vapautusrintama (Frente de Liberação do Pênis, uma brincadeira com o women lib). Foi o último com partcipação de Jere na bateria e pode ser considerado o mais consistente dos singles do Lama. São quatro faixas que ouvi milhares de vezes. Além disso, tem uma capa fantástica: um desenho que remete a Alice no País das Maravilhas, só que com detalhes pornográficos, como cogumelos em forma de pênis.

A essa altura o punk fervia na Finlândia e o Lama acumulava uma boa milhagem de palco. Charlie, o guitarrista conta em uma entrevista no livro Parasta Lapsille – Suomi Punk 1977-84 (Melhor para as crianças – punk finlandês 77-84), que a banda era movida a álcool, nos ensaios e nos palcos. “Nós tínhamos uma tradição quando ensaiávamos em Lepakko (um centro cultural que funcionou em Helsinque de 79 a 99). Ensaios bêbados. O sorbus (espécie de vinho finlandês extraído de fruta homônima, caracterizado por ser bem forte) era a bebida da moda na época e cada um do grupo tomava pelo menos uma garrafa nos ensaios. Ninguém podia tocar em seus instrumento antes de virar meia garrafa. Só depois disso podíamos tocar. Como também íamos bêbados para os shows, é certo que aprendemos a tocar bêbados.”

lama5Em 1982 sai o esperado LP, chamado simplesmente Lama. E o grupo não decepcionou. O disco é um petardo, com 15 faixas demolidoras. Como fã declarado, sou suspeito, mas algumas músicas desse disco estão entre as melhores de todos os tempos, como Tänääm Kotona (No lar hoje), que abre o disco, Koputus (Batendo), Kellot (Sinos) e Turpa kiini ja nussi (Cale-se e foda).

Logo após o lançamento do álbum, Jusa entrou no lugar de Jere. Eno também deixou a banda e foi substituído por Rane, baixista do último vinil lançado pelo Lama, o single Ajatuksen Loppu / Mun Pelko (Pensamento final / Meu medo). Então Jusa foi para o exército e a banda passou por uma “crise de identidade”, quando descobriram que poderiam tocar e falar qualquer coisa no palco que o público simplesmente aceitaria. “As pessoas estavam bêbadas pra caralho e queriam bater a cabeça no chão. Nós achamos que eles poderiam fazer isso por conta própria, sem nossa ajuda”, revela Charlie em outra parte do livro já citado. O último show do Lama foi em 4 de dezembro de 1982, no Lepakko. Depois disso, o grupo ficou mais de 20 anos “esquecido”, mas em 2005, foi reformado e, desde então, se apresenta esporadicamente.

Baixe aqui os quatro singles do Lama e aqui o único álbum do grupo

Curiosidades

  • Lama, na língua local, significa depressão.
  • Apesar de ter acabado, o Lama fez uma apresentação em 1994 e outras quatro em 2005, com Charlie, Epe, Jusa e Eno. Todas em solo finlandês.
  • Após o fim da banda, Jusa, Eno e Raine tocaram no Unicef (em momentos diferentes), banda que gravou apenas um compacto e é considerada uma lenda pelos punks finlandeses. Raine tocou ainda no Smack, um grupo de glam rock. Epe foi para o Musta Paraati, banda pos-punk. Charlie tornou-se motorista de taxi.
  • Todos os membros do Lama eram muito amigos do Widows, uma das bandas pioneiras no punk finlandês. Os grupos ensaiavam e, claro, tomavam vários porres juntos. O guitarrista do Widows, Markku Manner, aka, Kellogs Bollocks, produziu o primeiro single do Lama.
  • Um pouco antes de lançar o LP, em 1981, o Lama tornou-se a segunda banda de rock finlandesa a tocar em solo inglês (a primeira teria sido o Wigwam, um grupo de rock dos anos 60/70), com três apresentações: no lendário 100 Club (Londres), em Grimsby e em Leeds, no memorável festival Christmas on Earth, ao lado de bandas como Damned, UK Subs, Chron Gen, Exploited, Black Flag, Anti-Nowhere League, Outcasts, Discharge e outras.
  • Hippo, o primeiro batera do Lama, formou o Neurovisio, que durou apenas dois anos (79-81) e só apareceu em um disco em 1995, mais exatamente na coletânea Apocalypse. Mas ele não toca em nenhuma das quatro faixas do grupo.
  • Em abril de 2013, o “novo” Lama fez três apresentações no Brasil.

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