The Sillies, da época em que éramos sujos e safados

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Detroit é o berço do punk. Foi lá que nasceram Stooges e MC5, grupos que com seu estilo de rock agressivo e acompanhado de atitude rebeldes, quase criminosas (afinal, era apenas música), foram fundamentais para  que viria a ser o punk. Milhares de bandas em todo o planeta deram continuidade, nas mais variadas formas, ao som sujo, pesado e com letras ofensivas ou politizadas dessas duas bandas, surgidas no final da década de 1960.

Uma outra consequência da monstruosidade sonora desses grupos foi a forte influência que exerceram nas bandas locais. Ser roqueiro em Detroit nos anos 70 e passar incólume a Wayne Kramer, Iggy Pop e cia, era como ser londrino em 76 e não perceber o punk…

sillies waugh-mulrooneyFoi nesse quadro que surgiu o The Sillies, para muitos, a primeira banda essencialmente “punk” de Detroit (há controvérsias, claro). O grupo foi criado em abril de 1977 pelo guitarrista, cantor e compositor Ben Waugh e a cantora Sheila Edwards. Após participarem de uma jam session, os dois decidiram formar o que seria um grupo de “progressive punk” (vai saber do que se tratava….).

A eles juntaram-se o baterista Steve Sortor, a.k.a. Perry Noyd, ex-Mutants (os de lá eram bem melhores que os de cá); o guitarrista Tommy Kilowatt, ex-Flirt; mais o tecladista Ed Mich e o baixista Vince Volatile. O The Sillies tinha um membro extra nos palcos, a performer Tamara, uma espécie de dançarina (na verdade, não “dançava”, mas ficava no palco em atitudes obscenas e provocando a plateia).

A primeira apresentação do Sillies aconteceu em agosto de 77 e foi um teste de fogo para qualquer um: tocaram para uma audiência de mais de mil pessoas, como abertura do (new) MC5, uma reencarnação do lendário grupo encabeçada pelo vocalista Rob Tyner, mas sem qualquer outro membro original. Aliás, na mesma noite, o Destroy All Monsters também tocou, com Ron Asheton e Michael Davis (ex-baixista do mesmo MC5). Uma zona!

A estreia chamou a atenção pela energia da música e a atitude no palco: uma mistura de pornografia e provocações ao público. Sexistas e machistas. Politicamente, socialmente, eticamente incorretos. A escola de mestre Iggy levada ao extremo.

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A banda de Ben Waugh

Bastaram poucas apresentações para a reputação do grupo correr Detroit. Não demorou a ficar complicado arrumarem um local para tocar. Pior, entre o final de 77 e os primeiros meses de 78, o grupo praticamente se desintegrou. Sheila deixou a banda e se juntou ao The Screamers pouco depois. Perry Noyd voltou ao Mutants (que havia acabado, mas retomou as atividades, ainda em 77), Tom e Ed (provavelmente temendo pelo futuro incerto da aventura) também saíram.

sillies waugh-profaneMas Ben Waugh, mente e alma do grupo, não desistiu e tocou o barco. Logo surgiria o “novo” Sillies,  que passou a contar com Waugh, Vince (agora guitarrista), o baixista Michael Profane (que participara da jam session que deu origem ao grupo) e o baterista Bob Mulhoney, a.k.a. Bootsey X, ex-Ramrods e Nikki Corvette. Como já se tornara marca registrada do grupo, Katy Hait entrou como backing vocals e Gloria Love como performer.

 

As mudanças não chegaram a afetar o estilo do grupo, nem melhoraram a reputação. As coisas iam ficando cada vez piores devido a “pequenos” incidentes sempre que eles tocavam. Em Cleveland tiveram de sair escoltados pela polícia, com a promessa de que se voltassem por lá, seriam presos. Tudo por causa de um quebra-quebra que destruiu o bar do clube onde tocavam.

No que era para ser um show comum, na Universidade de Detroit, acabou com a banda expulsa do campus. Tiveram sérios problemas também em Michigan e Chicago. Enfim, onde passavam, era um desastre.

Do it yourself

Como era cada vez mais difícil arrumar um local para se apresentar, os Sillies tiveram um ideia original e que não apenas solucionou o problema como deu uma força incrível para muitas outras bandas da cidade dos motores. Alugaram um clube decadente por um final de semana e foi um sucesso. Então o dono ofereceu a eles um aluguel permanente do local. Começava a história de um dos mais importantes night clubs da cena underground de Detroit, o Bookie’s Club 870.

Além de se tornar um espaço para ensaio, por lá passaram grupos como Police (antes de se tornarem superstars, claro), The Clash, Damned, Dead Boys, Ultravox, Cramps e muitos outros. Algo comparável ao que representou o Hangar 110 em São Paulo.

Longe do estúdio

Em meio a tantas atividades, o grupo parecia não se importar tanto em gravar. O único registro em vinil que fizeram nesse período intenso foi um compacto com duas músicas (No Big Deal e Is There Lunch After Death), totalmente independente. Hoje, uma preciosidade para colecionadores.

silliesA bolachinha foi lançada no verão de 79 e junto com ela mais uma crise entre os membros. De uma só vez, Katy, Bob, Vince e Gloria saíram. Mais uma vez, Ben Waugh reformou o Sillies, agora com ele, Profane, a tresloucada Kirsten Rogoff, a.k.a. Kurse-Ten nos teclados e Chip Sercombe na bateria.

Essa formação, mais musical mas não menos “barra pesada”, acabou sendo a mais produtiva (a maioria das músicas do álbum America’s Most Wanton, lançado postumamente em 2002, foi registrada nessa época). O “novo” Sillies, porém, duraria apenas até 1980.

Após uma tumultuada turnê com os Heartbreakers de Johnny Thunders, as relações entre os membros desgastaram-se bastante. Como não tinham nenhum contrato profissional e o punk rock que faziam estava em baixa (naqueles dias, ou se era HC ou power pop) o fim foi inevitável.

silliescdEm 1981, Ben, com auxílio de amigos, ainda gravou um música (Real Live Love) para a coletânea Detroit on a Platter. Mas a faixa já não tinha muito a ver com o Sillies original. A “swan song” de um grupo que escreveu mais um belo e obscuro capítulo da história do punk, que musicalmente ainda é “apenas” rock’n’roll pesado e cru, feito por sujeitos sujos e não muito confiáveis.

America’s Most Wanton, o álbum póstumo (do The Sillies, lançado em, está aqui (ripado de uma fita cassete)

Curiosidades

  • O Sillies reuniu-se para três shows em 1989, com Waugh, Kirsten e Tommy Kilowatt, mais o baixista Skid Marx (do Flirt, outra lendária banda de Detroit).
  • Uma segunda reunião aconteceu em 1992, de novo com Ben, Kirsten, Marx e Kilowatt, além de Jackie Jung, uma amiga de Kirsten, nos vocais e os bateristas Don Bloxson e Keith Brown, que revezaram-se nas apresentações que se seguiram até 1994.
  • O grupo ressurgiu das cinzas, mais uma vez, em 98, na comemoração dos 20 anos do Bookie’s Club.
  • Em 2001, Ed Mich, o primeiro tecladista do Sillies, morreu após sofrer um choque elétrico.
  • Chip Sercombe tocou também no Hysteric Narcotics e, mais recentemente, no Fondas, uma interessante banda com pegada soul e garage.
  • A partir de 2002, Ben Waugh reformou de vez a banda (quem não reformou, né?) e se mantém em atividade, com algumas breves pausas. Afinal, o pulso ainda pulsa.

 

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