The Ruts: eles tinham algo a dizer

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The Ruts foi a banda que tinha alguns dos músicos mais talentosos da “segunda onda” punk inglesa. Fazia um som ao mesmo tempo pesado e bem trabalhado, com boas letras, politizadas, mas sem panfletarismo, afinal, seus integrantes estavam longe de serem militantes, mesmo tendo feito muitos shows no circuito Rock Against Racism.

Uma das características mais marcantes do Ruts é que era bastante influenciado pelo reggae. O grupo compôs pelo menos duas ótimas faixas no ritmo jamaicano (Jah War Give Youth a Chance), o que lhe conferiu a fama de “banda punk com raízes reggae”. Na verdade, o som do Ruts era um dos mais furiosos e pesados do período 77-79.

Berço hippie

A história do Ruts começa bem antes do punk, no bairro de Hayes, zona oeste de Londres, com a amizade entre Malcom Owen e Paul Fox, companheiros de escola (incrível como a história se repete!). No início dos anos 70 os dois mudaram para uma comunidade hippie na Ilha de Anglesey, no País de Gales. O local é famoso por ter sido berço de druidas e é uma espécie de meca do misticismo celta.

Lá, eles começaram a compor músicas e formaram um grupo chamado Aslan, com Paul Mattock na bateria. Faziam um som com influências do folclore celta, óbvio. Em 1975, a comunidade entrou em colapso (como 99% das comunas da época) e os três voltaram para Londres.

Malcolm Owen and Segs of the Ruts, Alexandra Palace, London UK 1979

Fama e morte

Na metrópole, Fox e Mattock juntaram-se ao Hit & Run, uma banda de jazz-funk comercial. Outro amigo de Paul, Dave Ruffy, logo passou a fazer parte do grupo, que vivia de shows, mas chegou a gravar um single, hoje bem raro.

Quando o punk rock ganhou as ruas de Londres, Malcom fazia bicos como DJ, assim estava antenado em tudo o que acontecia. Então, resolveu montar uma banda punk e chamou o velho amigo, que levou Ruffy com ele. Em agosto de 77, nascia o The Ruts, com Malcom Owen no vocal, Paul Fox na guitarra, Dave Ruffy no baixo e Paul Mattock na bateria.

RutsPIX007Enquanto boa parte das bandas da primeira onda punk londrina havia implodido ou passara a fazer um som mais comercial, o Ruts começou na contramão, com uma pegada mais agressiva. Um mês depois de formado, o grupo apresentou-se pela primeira vez, ao tocarem três músicas no intervalo de um show do Mr. Softy, banda paralela de Paul Fox. E chamaram mais a atenção que todo o set do Mr. Softy. Não muito tempo depois, o Ruts gravou quatro músicas em um estúdio chamado Freerange, entretanto, essas só seriam lançadas em 1983.

Então começaram a fazer shows, mas Mattock não queria tocar tão rápido e pediu para sair. Com isso, Ruffy foi para a batera e John “Segs” Jennings assumiu o baixo. A formação que faria história como The Ruts, enfim, estava reunida. A primeira apresentação foi como abertura do Wayne County & the Electric Chairs (outra grande banda da época), em janeiro de 78.

A amizade de Malcom com o pessoal do Misty in Roots (provavelmente a melhor e mais subestimada banda de reggae da Inglaterra) que possuía um selo independente, o People Unite, ajudou no lançamento do primeiro single, com as faixas In a Rut H-Eyes. As mil cópias do compacto, sem capa, venderam rapidamente após John Peel elogiar entusiasticamente o grupo em seu programa na rádio BBC.

rutsliveAo lado do Misty, o Ruts fez diversos shows para o movimento Rock Against Racism. Foi nesse período que o grupo ganhou a influência do reggae, vendo como o Misty tocava. A fama da banda cresceu e logo assinaram com a Virgin Records. E o primeiro fruto foi o compacto Babylon’s Burning, o maior “hit” do grupo e um clássico do punk setentista. No lado b, Society é outra ótima faixa, mas acabou ofuscada pelo brilhantismo de Babylon’s. O segundo single, ainda em 79, com Something That I Said / Give Youth a Chance, esta, gravada durante uma das Peel Sessions.

Apesar de relativamente novo, o Ruts entrou em estúdio para gravar seu primeiro LP como uma banda experiente e, sob todas essas influências, só podia sair um grande disco. O que, de fato, The Crack é. Pode entrar em qualquer lista dos dez melhores álbuns punks de todos os tempos. As porradas Backbitter, Savage CircleCriminal MindI Ain’t Not Sofisticated Human Punk beiram o hardcore. E, mesmo faixas mais “tranquilas”, como S.U.S. e It Was Cold são consistentes.

rutsmalcolmowen2Tudo ia muito bem. Bem demais para um grupo que tinha um heroinômano como vocalista e ícone. De presença marcante no palco e dono de uma voz naturalmente agressiva para uma banda de rock, Malcom Owen tinha também uma dependência antiga da droga, que escondeu por um tempo dos companheiros, mas que acabou sendo mais forte que ele e se manifestou justamente no auge do Ruts.

A droga começara a afetar sua voz e ele não conseguia mais cantar. Mesmo após receber um ultimato da banda, Malcom não tomou jeito e foi dispensado. Pior, sua esposa também não o queria mais. Em depressão, foi para a casa dos pais e acabou morrendo de overdose no dia 14 de julho de 1980.

Ruts DC

Após sua morte, o grupo ainda sobreviveu por um tempo, sob o nome Ruts DC (a sigla refere-se à expressão “Da Capo”, que em partituras musicais significa “repetir o início”), com um som mais trabalhado e bem distante do punk. Mas não deu. Depois de dois bons álbuns – Animal Now (com pegada mais pop) e Rhythm Collision vol. 1 (um grande disco de reggae, produzido pelo famoso Mad Professor), em 1982, chegou ao fim uma das maiores lendas do punk.

Mas não foi o “fim definitivo”, o Ruts DC se reuniu em 2007 para um último show de Paul Fox, diagnosticado com uma doença terminal. A apresentação, com Henry Rollins nos vocais, é histórica. Após a morte de Fox, em outubro daquele mesmo ano, Jennings e Ruffy resolveram ressuscitar o Ruts DC, com o guitarrista Leigh Heggarty.

Assim, saíram mais dos álbuns do Ruts DC: Rhythm Collision vol. 2 (2011) e Music Must Destroy (2016), este, com um som mais pesado e bastante elogiado pela mídia alternativa. O grupo está em plena atividade.

Baixe aqui o histórico The Crack. E aqui, as Peel Sessions.

Curiosidades

  • Diz a lenda que, em 1977, Malcom Owen viu o Sex Pistols tocar e saiu do show convencido de que ele e Paul podiam fazer melhor. Embora haja um abismo quanto à importância histórica de uma e outra banda, Owen tinha razão.
  • Ironicamente o Ruts tem duas músicas, compostas por Owen, que criticam o uso de drogas: Dope for guns H-Eyes (You’re so young, you take smack for fun / It’s gonna screw your head, you’re gonna wind up dead / You scratch your nose, you’re lucky when it shows / It’s gonna screw your head you’re gonna wind up dead / H-eyes, H-brain, in your vain / H-eyes, H-brain, it’s gonna fuck your brain).
  • No álbum Animal Now, do Ruts DC, uma das músicas, Parasites, é “dedicada” à Virgin, o que teria sido a gota d’água para o selo dispensar a banda. Na verdade, estavam descontentes com as fracas vendas do grupo. Após o rompimento, Fox, Ruffy e Mattock fundaram seu próprio selo, a Bohemian Records.
  • Babylon’s Burn fez parte da trilha sonora do filme Times Square, do diretor Allan Moyle, lançada por aqui em um álbum duplo, em 1981, o que tornou o Ruts uma das poucas bandas punks daquele período a terem algo lançado no Brasil.
  • Quando Malcom faleceu, a Virgin negociava o lançamento de um compacto solo dele, que teria o Ruts como banda de fundo. O que torna a cagada ainda maior…

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