Dead Boys: punks ao extremo

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Em 1975 o punk ainda não existia “oficialmente”. Mas o Dead Boys já. E era assustadoramente punk. E deram uma gigantesca contribuição para que tudo o viria a ser conhecido como punk se espalhasse pelo mundo. Com um som que entra facilmente no rol dos mais agressivos daquele período, o Dead Boys ainda tinha uma habilidade musical inegável, fosse em estúdio ou no palco, onde destacava-se ainda performances endiabradas de de Stiv Bators, inspiradas no fuckingodfather Iggy Pop. Além dos Stooges, é fácil identificar algo de MC5 e New York Dolls na sonoridade do grupo.

Por outro lado, diferente do punk que surgia na Inglaterra, com discurso politizado, os caras do Dead Boys não estavam nem um pouco interessado no assunto. Cantavam sobre  sexo, drogas, solidão e o lado “sujo” da sociedade. Não tentavam fazer a cabeça de ninguém. No fundo, queriam apenas se divertir, beber, arrumar confusão e ter sexo fácil  e gratuito. Queriam ser rockstars, não vozes ou mártires de uma revolução, embora estivessem no olho do furacão de uma. Nada mais do que uns caras pobres loucos para ficarem ricos e “detonar”.

O som das tumbas; “lixo pobre”

A banda é de Cleveland e sua origem remonta ao lendário Rocket From The Tombs, que se dissolveu em julho de 1975. A dissolução acontecera porque o grupo estava dividido com o guitarrista Cheetah Chrome e o batera Johnny Blitz de um lado, querendo fazer um rock mais pesado, e o vocalista David Thomas e o guitarrista Peter Laughner, de outro, com uma proposta mais “art-rock”.

Após o fim do Rocket, os dois últimos fundaram o Pere Ubu, grupo seminal para o que viria a ser o “pós-punk”. Já os dois primeiros se juntariam a Stiv Bators, o guitarrista Jimmy Zero e o baixista Jeff Magnum, que ensaiavam covers do Stooges e procuravam outros caras para formar uma banda. A união já se desenhara na última fase do Rocket, quando Stiv teve uma passagem relâmpago por uma das últimas formações da banda. Na derradeira apresentação do RFTT, ele subiu ao palco e fez uma performance improvisada com Cheetah e o batera, sem os dois futuros Pere Ubu.

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Nascia assim o… Frankenstein. Isso mesmo. Esse foi o primeiro nome que escolheram, sob o qual fizeram quatro apresentações em Cleveland e gravaram uma demo com três faixas: Sonic ReducerHigh Tension Wire e Down In Flames. Três meses depois, desanimados com a falta de espaço, decidiram dar um tempo.

Então, Stiv conheceu Johnny Thunders, ex-guitarman do New York Dolls, na época destruindo no Heartbreakers. Estava apresentado à cena novaiorquina. Stiv percebeu no ato que ali teriam mais espaço. Então, convenceu os demais integrantes do Frankenstein que deveriam se mudar para NY. Antes, porém, decidem mudar o nome (ufa!) para Dead Boys, tirado da letra de Down In Flames, um clássico do punk.

Em Nova York, os Dead Boys se aproximam de Joey Ramone, com quem já haviam tido contato quando a banda dele tocou em Cleveland. Foi o “Magrão” que arranjou uma audição para o Dead Boys tocar no CBGB.

Em agosto de 76, o Dead Boys subia pela primeira vez ao palco do lendário clube. A performance incendiária de Stiv, aliada à agressividade das músicas, agradou em cheio e eles se tornariam habitués do local. E a julgar pela rapidez dos fatos, o barulho que fizeram foi grande. Poucos meses depois já tinham um contrato com a Sire Records, a mesma gravadora do Ramones.

“O Dead Boys era lixo pobre, garotos da classe media baixa de Youngstown, Ohio. O grupo surgiu em ambiente violento. Cresceram em gangues, essa era a realidade. Com eles, era mais do que atitude, era estilo de vida”, conta Gyda Gash, que presenciou a ascensão do Dead Boys na Big Apple.

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Som na caixa

Em julho de 1977 é lançado o álbum Young Loud & Snotty. Pesado, furioso do início ao fim. Uma bomba de desilusão e niilismo. Entra fácil na lista dos dez mais agressivos da época. No disco, nada mais fizeram do que traduzir em som o espírito do estilo de vida que tinham.

The Dead Boys

Gravado no Electric Ladyland, estúdio montado por Jimi Hendrix, o álbum abre com Sonic Reducer, a música mais conhecida deles. Entre os clássicos da bolacha, na minha modesta opinião, estão também I Need LunchWhat Love Is e a já citada Down In Flames. Mas nenhuma faixa destoa, não há deslizes, é energia bruta – e às vezes angustiante – da primeira à última nota. Mesmo nos dias de hoje soa enérgico e pesado. Claro que foi um fracasso de vendas.

dead boys cbgbMas, para eles, funcionou. Como parte da campanha promocional do disco, embarcaram em uma turnê como banda de abertura de Iggy Pop pelos EUA e, logo depois, tocariam no Reino Unido com o Damned, que anteriormente dividira o palco com eles no CBGB. Privilegiados os que puderam presenciar tais apresentações.

Matando os Dead Boys

Mas a Sire estava interessada apenas no que vendesse. Afinal, o negócio de qualquer empresa é o dinheiro. E o punk não vendia a contento nos EUA. Nem o Ramones, nem qualquer outra banda atingira o mínimo necessário para dar o lucro esperado.

Então, para o segundo álbum, a produção de Lou Reed, como a banda solicitara, foi vetada. No lugar, a Sire escalou Felix Pappalardi, ex-guitarrista do Mountain, e produtor de bandas como o Cream. Nada menos apropriado para uma banda punk. Até o visual dos caras foi mudado. Pressionados, aceitaram, afinal não teriam como pagar uma multa contratual.

deadboys-1O fato é que We Have Come From Your Children chegou ao mercado e foi ainda mais decepcionante em termos de vendas. A autenticidade sumira. Aquele nunca havia sido o Dead Boys. A dúvida é: por que diabos então o fizeram? Por que não se recusaram? Talvez por serem mesmo uns fodidos sem dinheiro que acreditaram nos executivos. Nos aos 70, a indústria musical impunha condições para as bandas, mas não era uma imposição à força. Oferecia-se dinheiro. Simples assim.

O termo “vender a alma” talvez seja bastante adequado para descrever o que aconteceu com o Dead Boys e inúmeras bandas, especialmente a partir de 1978 quando os produtores constataram que o punk não tinha o mercado que se imaginava. Como desconto, todos os membros da própria banda sempre criticaram o álbum.

A mesma Gyda Gash diz que Cheetah teria ligado para James Williamson (do Stooges) durante as gravações, perguntando se ele não poderia ir até lá para tentar salvar o disco.

Lendas à parte, pouco tempo depois, Johnny Blitz foi esfaqueado em uma briga de rua e Cheetah Chrome quebrou o braço andando de skate. Impossibilitados de fazer shows e desinteressados no que a banda se tornara, o fim era inevitável.

deadboys5Para fechar com “chave de ouro” a história e o relacionamento da banda com a Sire Records, a fim de cumprir o contrato (deviam mais um álbum) fizeram um show que deveria ser gravado e lançado em disco. Mas Stiv, malandramente, desligou o microfone que captava sua voz para a gravação.

Foi impossível para a gravadora salvar o registro e o dito cujo não foi lançado. Não imediatamente. Anos depois, Stiv colocou sua voz sobre a gravação e a bolacha saiu pela independente Bomp! Records.

Mortos vivos

Após o fim do Dead Boys, ainda em 1979, Stiv Bators lançou dois compactos pela mesma Bomp! Records. Em 1980, lançou seu primeiro álbum solo, Disconnected, com um estilo mais sessentista e “psicodélico”. A seguir, foi para a Europa e formou o Wanderers – e, depois, o Lord Of The New Church – ambos com os caras do Sham 69.

deadboys-singleEm 1986, o Dead Boys se reuniu para algumas apresentações, especialmente na noite do Halloween, gravada e lançada em DVD com o título Return of the Living Dead Boys. Mas ficou nisso, especialmente após a trágica morte de Stiv, em 1990, atropelado em Paris.

Cheetah sempre se manteve no meio musical, mas também imerso no mundo das drogas pesadas, das quais só se livraria por volta de 2010. Fez parcerias e colaborações com integrantes de bandas como Replacements, Angry Samoans, The Testors e outros.

Mais ou menos em 2008 ou 2009, reaproximou-se de Johnny Blitz e David Thomas para reformar o Rocket From The Tombs (Peter Laughner, o quarto membro, morreu em 1977). Na mesma época, Blitz e Cheetah aceitaram fazer apresentações como Dead Boys, com músicos convidados. E, vira e mexe, os Garotos Mortos reaparecem. Ao que parece, Jeff Magnum e Jimmy Zero afastaram-se definitivamente da música.

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