Os moleques atrevidos e mal-educados do Eater

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“We’re the only band that can really relate to the kids, even the [Sex] Pistols… They’re old enough to be our dads.” (Andy Blade, vocalista)

The Clash are good, but politics is boring.” (Brian Chevette, guitarrista)

“I don’t know anything about ‘punk’. I was just asked to join a band called Eater and I did. I was wearing a ripped up t-shirt at the time. They said: ‘You must be a punk’ and I said, ‘oh yeah’. I read about it in the papers and I just joined ‘em.” (Dee Generate, baterista)

“I like playing fast music and I can play fast music for Eater and that’s why I’m playing. I’m not playing for people to look at me.” (Ian Woodcock, baixista)

“I’d had really like people to go and blow up schools. Turn on their parents and slash’em up with razor blades.” (Andy B.)

As frases acima são de integrantes do Eater, publicadas em 1976 pelo fanzine inglês Sniffin’ Glue. Essa é a maneira mais fácil que encontrei para apresentar uma das bandas mais polêmicas da cena punk inglesa de 76/77. Com idade entre 14 e 16 anos, os moleques não se intimidavam em soltar o verbo.

Hoje, porém, e com certeza, seriam acusados, ou melhor, julgados, como machistas e politicamente incorretos. Talvez, até de nazistas, nacionalistas e outros “istas” mais. Mas eram apenas irresponsáveis. Talvez, por isso, também não tenham sido levados muito a sério e não alcançaram a fama que muitos de seus conterrâneos/contemporâneos conseguiram fazendo o mesmo que eles.

Os moleques eram irresponsáveis, mas competentes no “ofício”. Faziam um punk rock básico, cru, pesado, sem compromisso e com letras ofensivas.

Pioneirismo

eatergodcreated2O Eater foi formado em 1976 com Andy Blade (nome verdadeiro: Ashie Radwan) na guitarra e vocal; Brian Chevette (Brian Haddock) na guitarra e Social Demise (Lufti Radwan, irmão de Andy) na bateria. Ainda no mesmo ano, Demise desistiu da empreitada e foi substituído por Dee Generate (Roger Bullen), enquanto Ian Woodcock passou a ser o baixista e Andy desistiu da guitarra.

Apesar de serem de Londres, o primeiro show foi em Manchester, no dia 26 de novembro de 76, e tiveram como banda de abertura… o Buzzcocks! Em pouco tempo, embalados pelo crescimento da cena punk em Londres, os garotos ficaram famosos, e dividiram o palco com alguns dos grupos mais importantes da cena punk inglesa, como Damned, Slaughter and the Dogs, The Lurkers, Johnny Moped, Sham 69, Chelsea, Heartbreakers (americano) e outros.

No toca-discos

O primeiro registro em vinil do Eater está na na coletânea Live at the Rox, na qual comparecem com faixas (Don’t need it e Fifteen, uma cover acelerada e adaptada de Eighteen, de Alice Cooper) . Pouco depois, assinaram com o selo independente The Label, que tinha como um dos donos Dave Goodman, produtor e engenheiro de som da primeira demo tape dos Sex Pistols.

O primeiro single, com Outside View e You, foi lançado em 76 e é considerado um dos primeiros registros do punk inglês. Já em 1977, lançaram o single Thinking of the USA e Space Dreamin’.

eater6Pouco depois, a banda dispensou Dee Generate e Phil Rowland assumiu as baquetas nas gravações do primeiro e único LP do Eater. Batizado The Album, foi lançado em 1978. No mesmo ano, fizeram o single Lock it up / Jeepster, a segunda, uma cover do T.Rex. Este compacto tem uma particularidade: é de 12 polegadas e tem as mesmas músicas dos dois lados, em ordem invertida.

Já no início de 79, o Eater lançou um dos discos que mais ouvi em minha vida: o compacto Get your yo yo’s out, com quatro músicas ao vivo (Debutante’s Ball, No More, Thinking of the USA e Holland). Ainda naquele ano, saiu o último vinil do Eater, um single com What She Wants What She Need Reach for the Sky.

Depois disso, com a dispersão da cena punk e cansados de dois anos seguidos de loucuras, o grupo chegou ao final. No pouco tempo que existiram, mesmo sendo apenas garotos, conseguiram alguns feitos, como ter sido a primeira banda punk inglesa a tocar fora da Inglaterra (na Bélgica). Em minha opinião, uma das melhores e mais subestimadas bandas da época.

Vida pós-Eater

Depois que o Eater acabou, Ian Woodcock teve uma rápida passagem pelo Vibrators. Anos mais tarde, tornou-se executivo da Puma no Oriente. Phil Rowland, por sua vez, montou o Studio Sweethearts, com ex-integrantes do Slaughter and the Dogs, tornando-se baterista deste último quando tiveram um breve retorno nos anos 80 e gravaram o LP Bite Back. Depois disso, desistiu da música e mudou-se para os EUA.

Já o batera Dee Generate, logo após ser despedido do Eater, tentou tocar em algumas bandas, mas logo desistiu da música. Formou-se em Artes e atualmente é assistente social.

eater3Andy Blade foi o que mais se manteve ligado ao mundo da música. Logo após o fim do Eater, gravou um single com Bryan James, ex-Damned, com as músicas Lying Again To Me e Death, que acabaram incluídas em uma coletânea chamada Complete Eater, erroneamente creditadas ao grupo.

Pouco depois, montou o Andy Blade Group, que tinha como guitarrista um certo Billy Duff (The Cult, etc) e chegou a lançar um single (Break The News). Em 1994, Andy ressurgiu com seu primeiro álbum solo, From Planet Pop to the Mental Shop, no qual mostra seu talento como compositor e produtor, além de uma maturidade musical oposta às molecagens do Eater.

Por cerca de uma década, Andy trabalhou em inúmeros projetos e só voltaria a aparecer no mercado musical em 2005, com o álbum Treasure Here, com composições satíricas, irônicas e bem elaboradas, marcas registradas de todos os seus trabalhos seguintes: Life affirming songs for tose with a bad attitude (2008), Let’s burn the internet down (2010) e Plastic penny and the strange wooden horse (2016).

O mundo das canções de Andy é sombrio e decadente, fala de crianças sequestradas, crimes hediondos, prostituição, jihadistas, eutanásia, loucura, radicalismo religioso, celebridades decadentes e por aí vai… Musicalmente, vai do melódico ao psicodélico, mas sempre com uma sonoridade própria, nem sempre muito “digerível”.

Mas sua grande “obra” pós- Eater é o livro The Secret Life of a Teenage Punk Rocker, um clássico registro sobre os primeiros anos do punk rock na Inglaterra.

Brian Chevette, por sua vez, ficou fora de tudo até que, mais ou menos em 97 ou 98, ele e Andy reformaram o Eater para eventuais apresentações, que têm ocorrido esporadicamente desde então.

Confira a sonzeira do Eater na coletânea All of Eater, que contém o LP e todos os compactos.

Curiosidades

  • O nome do grupo foi inspirado pela última frase da letra de Sun Eye, música do T. Rex, maior influência de Andy: “Tyrannosaurus Rex, The Eater of cars”.
  • Andy e Brian “fundaram” o Eater após espalharem na escola que tinham uma banda. A intenção era impressionar as garotas. Com o tempo, porém, a mentira cresceu e se viram obrigados a realmente montar o grupo, ou passarem um baita vexame. Sem dinheiro para comprar instrumentos, roubaram duas guitarras e um baixo de uma loja que ficava perto da casa de Andy. Depois disso é que Dee e Ian entraram no grupo.
  • O fato de o baterista Dee Generate ter apenas 14 anos quando começou a tocar com o Eater criou situações curiosas. Uma delas é que a mãe do garoto foi bastante procurada pela imprensa para falar sobre como era ter um filho daquela idade em uma banda punk (na época, a conservadora sociedade inglesa estava chocada com o que acontecia). A mãe dele, uma ex-hippie, adorou ter os holofotes voltados para si e aceitava falar sobre o assunto em diversos programas de TV. Claro que Dee sentia-se constrangido.
  • O Eater saiu na revista Oh! Boy, destinada a um público semelhante, no Brasil, a publicações como Capricho ou TodaTeen. A matéria passou uma imagem equivocada do grupo. Segundo Dee Generate, ele teria sido ludibriado por uma das repórteres da revista, que usou a única foto em que eles saíram sorrindo.
  • Dee Generate foi apresentado a eles por nada menos que Rat Scabies, baterista do Damned e vizinho do garoto. Já o baixista Ian apareceu após atender um anúncio da banda no Melody Maker. Com 17 anos, era o “tiozão” da banda.
  • A participação da banda no filme Punk Rock Movie de Don Letts ficou marcada por terem levado uma cabeça de porco para o palco, durante a música No Brain. No final da apresentação, Andy e Dee tentam arrebentar a cabeça com uma faca e uma machadinha, não conseguem, e Brian atira a peça na plateia.

 

 

 

 

 

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