Os jogos animalescos do London

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A revista POP (Editora Abril) foi uma publicação da década de 70 destinada ao público adolescente. Era bem sonsinha e, depois de certo tempo, tornou-se bem “gatinha”. Já li comparações com a Bizz (anos 80), mas acho que ela estava mais para a TodaTeen e a Contigo de épocas mais recentes, apenas com um pouco mais de pop/rock no conteúdo.

No entanto, por ironia do mundo capitalista, essa autêntica representante de tudo aquilo que os punks repudiavam, essa coisa aparentemente tão inocente, foi responsável por um dos melhores LPs de punk rock já lançados no Brasil: a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, com Sex Pistols, Ramones, The Jam, Eddie & The Hot Rods, London, Ultravox, Stinky Toys e Runaways.

Na verdade, a POP via o punk como uma nova moda e fazia uma grande confusão a respeito do que realmente acontecia do outro lado do Atlântico. Lembro-me de uma matéria em que tentavam vender o Made in Brazil como banda punk (era engraçado ver fotos dos caras com maquiagem simulando bocas sangrando).

Mas no disco eles acertaram, com uma seleção de primeira. O petardo sonoro acabou atingindo outros públicos e influenciou boa parte dos primeiros punks da periferia paulistana. Uma das minhas faixas preferidas na coletânea da POP é Everyone’s a Winner do London. E este post é sobre eles e não a famigerada revista.

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Ascensão

O London foi uma das bandas pioneiras do punk inglês e, como o Maniacs, teve uma vida bem curta. Começou em 1976, à partir da iniciativa do vocalista Miles Tredinnick, que usava o apelido Riff Regan. Os outros membros foram recrutados após atenderem anúncios de Miles no jornal Melody Maker. O primeiro a aparecer foi o baixista Steve Voice, que comporia a maioria das músicas do grupo, em parceria com Miles. Depois dele, foi a vez do baterista Jon Moss e a formação se completou com o guitarrista Dave Wight.

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Apesar de serem músicos acima da média das primeiras bandas punks, dos quatro, apenas Jon Moss tinha alguma experiência, tanto que estava em teste com o The Clash! No entanto, ainda que vários amigos o aconselhassem do contrário, preferiu ficar no London, pois não se entendia muito bem com Joe Strummer. Coisas que acontecem desde os primórdios da história do rock.

Antes de formar o London, Miles trabalhava como assistente do produtor de cinema Robert Stigwood (Jesus Christ Superstar, Tommy, Grease, Saturday Night Fever, entre outros), assim, era um cara descolado. No show de estreia da banda, na plateia estvam algumas figuras carimbadas do show business, como o empresário Simon Napier-Bell, que já trabalhara com grupos como Yardbirds e T. Rex. Assim como quase todos em sua profissão, o cara andava à procura de bandas da nova onda musical que começava a tomar conta da Europa. Napier-Bell gostou do que viu e em pouco tempo o London já era a principal atração em shows pequenos. Logo o grupo seria escalado como abertura da turnê nacional do Stranglers, que àquela altura já era bem conhecido por toda a Europa.

O fim e o “retorno”

Em vinil, porém, o London não conseguiu a mesma repercussão. Ou, pelo menos, não a que a MCA que os contratara e Napier-Bell esperavam. O primeiro single foi Everyone’s a Winner / Handcuffed. A bolacha teve boas vendas, porém, não chegou às paradas como desejavam os produtores.

O segundo compacto foi um duplo com quatro faixas: Summer of Love, No Time, Siouxie Sue e Friday on my Mind. O máximo que conseguiram em termos mercadológicos, porém, foi uma 52ª posição nas paradas musicas (naquele tempo, isso era importante). Depois de mais uma tentativa (fracassada) de obter um single de sucesso, com Animal Games Us Kids Cold, chegara a hora de gravar o LP.

londonJá no final de 1977, o London entrou em estúdio e concebeu Animal Games. O álbum de onze faixas (apenas seis delas inéditas) chegou às lojas no início de 78. Mas àquela altura o grupo já não existia mais. Jon trocara a banda pelo Damned, em substituição a Rat Scabies. Os três remanescentes tentaram arrumar um baterista que os agradassem, mas antes que isso acontecesse, acabaram por dar fim ao grupo, também em função das fracas vendas e da violência que começava a rolar nos shows punks.

Em 2008, Miles e Steve reformaram a banda e desde então têm feito vários shows. Além deles, o novo London tem o guitarrista Hugh O’Donell e o baterista Colin Watterston, ambos ex-The DB’s. Em 2012, com essa formação, saiu o segundo álbum, Reboot. Um bom disco, sem dúvida, mas, ao contrário de Animal Games, que estava à frente de seu tempo, parece envelhecido.

Baixe aqui Punk Rock Collection que reúne o LP Animal Games mais quatro faixas bônus.

Curiosidades

  • Depois de deixar a banda, Jon Moss não teve tempo nem de curtir com os novos comparsas, já que o Damned também acabou (depois retornaria e tocam até hoje). Logo a seguir, foi um dos muitos bateristas que passaram pelo The Nips (a banda de Shane McGowan) e conheceu um certo Boy George, com quem formaria o Culture Club.
  • Após o fim do London, Riff Regan, ou Miles Tredinnick, seguiu carreira solo. Entre 1978 e 81 lançou quatro singles. Todos de baixas vendas. Então passou a escrever scripts para comédias de TV, no que se deu melhor e chegou a elaborar histórias para personagens da Disney, como Mickey e Pato Donald. Também escreveu uma peça de teatro de relativo sucesso (Topless) representada em cima de um daqueles ônibus de dois andares pelas ruas de Londres. Miles mantém um site pessoal com tudo sobre sua carreira.
  • Por sua vez, Dave (Colin) Wright concluiu seus estudos e fez doutorado em Política Internacional. Já Steve Voice formou uma banda chamada The Original Vampires, que não deu em nada e sumiu de cena.
  • Nos shows punks de 76/77 o público tinha o nojento hábito de cuspir nas bandas. Em uma apresentação, em Birmingham, Riff Regan usou um guarda-chuva para se proteger.

 

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