Outsiders entre outsiders

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Na grande leva de bandas surgidas entre 1976 e 77, muitas acabaram injustiçadas ou esquecidas, apesar de fazerem um som melhor que outras, idolatradas e reconhecidas pela mídia. The Outsiders foi uma delas. Formado em 76 por três amigos de escola – o guitarrista e vocalista Adrian Borland, o baixista Bob Lawrence e o baterista Adrian Janes – o grupo foi um dos mais ativos na cena punk londrina daqueles anos.

O LP de estreia do grupo, Calling on Youth, além de ser muito bom, uma verdadeira gema, é histórico: foi o primeiro totalmente gravado, editado e lançado por um selo (Raw Edge Records) de propriedade de uma banda, algo muito comum hoje, mas que nos anos 70 era uma atitude revolucionária. Até então, apenas Buzzcocks e Desperate Bicycles haviam se aventurado a lançar seus próprios discos, mas haviam feito apenas compactos. Alguns selos independentes também já começavam a surgir, mas nenhum pertencente às bandas.

outsiderspic2Calling on Youth foi lançado em março de 77 com uma tiragem de apenas 1.000 cópias, portanto, uma raridade. O detalhe é que os pais de Borland ajudaram a banda na empreitada, algo incomum até nos tempos atuais. Antes de lançar a bolacha, o grupo já havia feito todo o circuito londrino, com frequentes apresentações no Roxy e no Vortex, verdadeiros templos do punk rock.

No entanto, havia algo no Outsiders que continha o entusiasmo dos punks pela banda: o visual. Assim como o The Saints, eles sofreram um pouco por serem cabeludos. Para muitos, uma heresia! Mas o grupo recusava-se a cortar os cabelos. Recém-saídos de um colégio tradicionalista, que não permitia cabelos longos, assim que se formaram, já com a ideia de montar a banda e antes de toda a “coisa” punk surgir, haviam comemorado bastante o fato de não precisarem mais frequentar a cadeira do barbeiro. Ou seja, para eles, não fazia sentido cortar os cabelos justamente quando tinham liberdade para mantê-los como queriam.

Outra herança da boa formação escolar da banda eram as letras, bastante politizadas e bem elaboradas. A maioria escrita por Adrian Janes, assumidamente fã de John Lennon, enquanto Borland cuidava dos acordes. Na verdade, apesar do nome e do envolvimento com a cena punk, o Outsiders era formado por três garotos de classe média com boa educação. O baixista Bob Lawrence não só possuía uma coleção de discos de jazz e música erudita, como aprendera a tocar em um conservatório clássico!

Apesar de fazer um som do caralho e impossível de não ser enquadrado como punk, esses detalhes incomodavam a imprensa musical inglesa, que esperava que todas as bandas punks se comportassem como os Sex Pistols, escrevessem letras com linguagem chula e fossem filhos de operários. Para piorar as coisas, no primeiro LP a banda incluiu algumas músicas com tons psicodélicos (influências “velvetianas” de Borland).

Independentemente das críticas sobre suas origens e das vendas fracas, os caras seguiram tocando e gravando. Logo depois do primeiro LP, ainda em 77, lançaram o compacto One to Infinity, com quatro faixas. O segundo LP, Close Up, foi gravado em 78, mas seria lançado apenas no início de 79.

Mais elaborado e sombrio, porém ainda com uma pegada punk, o disco foi a confirmação de que a banda estava à frente de seu tempo. No entanto, antes mesmo do lançamento, Lawrence deixou o grupo e foi substituído por Graham Bailey, que aparece na capa, apesar de não ter participado das gravações. Com essa formação o grupo fez poucos shows e o iminente fim se confirmaria com a saída de Adrian Janes.

The Sound

Na verdade, pode-se dizer que o grupo entrou em uma nova fase, com novas idéias, nova formação e um novo som. Borland e Bailey (que passou a assinar Green) transformaram o Outsiders no The Sound, uma das melhores bandas da vertente que seria denominada pós-punk. O primeiro LP do Sound, Jeopardy, de 79, é um marco no gênero, apesar do pouco reconhecimento. Nada com que Borland não estivesse acostumado…

Baixe aqui Vital Hours, uma coletânea com o melhor dos dois LP, mais as quatro músicas do compacto One to Infinity.

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CURIOSIDADES

  • Durante uma das apresentações do Outsiders no Roxy, quando faziam uma cover de Raw Power, do Stooges, o próprio Igyy Pop subiu ao palco e cantou com o grupo. Uma honra e um fato que marcou bastante Borland, que tinha verdadeira obsessão por Stooges e Velvet Underground.
  • O grupo chegou a ter problemas com os seguidores do Sham 69, que os hostilizavam por serem cabeludos.
  • O Outsiders foi vencedor de um concurso de bandas realizado pela Stiff Records, um dos selos independentes pioneiros na cena punk. Mas a “vitória” não deu em nada e o segundo disco acabou sendo lançado no mesmo esquema do primeiro, totalmente independente e com divulgação mínima.
  • Consequences, uma das faixas do compacto One to Infinity, foi incluída na histórica coletânea Business as Unusual. Mas a banda não gostou nem um pouco, pois consideravam a faixa como a pior que haviam gravado.
  • Adrian Borland cometeu suicídio no dia 26 de abril de 1999, aos 41 anos, atirando-se sob as rodas de um trem em Londres, próximo a estação de Wimbledon. Borland sofria problemas mentais desde 1987. Reclamava que ouvia vozes e tinha crises depressivas violentas. Um dia antes de suicidar-se foi levado pela polícia para sua casa, depois de ser encontrado completamente fora de si em um restaurante. Apesar da crise, recusou qualquer intervenção médica, pois estava terminando um álbum solo (Harmony and Destruction). Prometeu a seus parentes que após finalizar o disco, procuraria tratamento. Mais um gênio incompreendido que se foi. Descanse em paz.

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