Aqui d’El Rock – violações ao sistema desde Portugal

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Em Portugal também há punk. E como há! E por lá as primeiras bandas apareceram também em 1977, obviamente como reverberação do terremoto que sacudia a Inglaterra. É bom dizer que Portugal nos anos 70 vivia uma situação muito diferente da atual. Até 1974 o país estava sob o domínio uma ditadura instituída em 1926.

Apesar de não ter sido tão sanguinário como um Stalin, o governo do ditador Antonio Oliveira Salazar, que durou de 1933 a 1968, deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. Mesmo depois de sua morte, em 1970, a ditadura instituída por ele seguiu no comando com uma ideologia nacionalista e isolacionista. Enquanto boa pare da Europa caminhava a passos largos para uma modernidade social e tecnológica, além de um significativo avanço econômico, Portugal permanecia estagnado.

A censura, como é de praxe nestes casos, comia solta. Mas o inevitável aconteceu em 1974, com a chamada Revolução dos Cravos, oficialmente vitoriosa em 25 de abril daquele ano. A deposição de uma das mais longas ditaduras da história enfim levava novos ventos ao país que um dia já havia sido um império.

A partir do fim da censura, não demorou para que o rock da terrinha tomasse outros rumos, mais contestadores. Os pioneiros do punk tuga são Os Faíscas, que duraram apenas um ano e meio e não chegaram a gravar nada em estúdio, mas teriam servido de inspiração a outros grupos, como o Aqui d’El Rock, tema deste post. Outras bandas da época são UHF, Minas & Armadilhas e mais famosos e duradouro deles, o Xutos e Pontapés. Ainda na primeira geração do punk português, mas já em 1979/80, surgiram Speeds, Grupo Parlamentar, FM e Tilt.

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O Aqui d’El Rock começou a tocar efetivamente em 78, embora seus fundadores, o baterista Zé Serra e o baixista Fernando Gonçalves, tocassem juntos desde 1972 em outras bandas. Mas foi apenas após conhecerem o punk é que resolveram formar o AD’R, para o quê convocaram o guitarrista Alfredo Pereira, com quem tocavam em uma outra banda chamada Osiris, que tinha também o guitarrista e vocalista Oscar Martins.

Como no Brasil, os “músicos” punks portugueses não tinham dinheiro para comprar equipamentos e sofriam com as reclamações da vizinhança em relação aos ensaios, sempre realizados em garagens ou nos quintais. Assim mesmo, o AD’R consegui gravar um compacto, o primeiro registro vinílico de uma banda punk em Portugal, com duas faixas: Há que violentar o sistema e Quero tudo.

AdR_Capa-01-myspaceHá que… trata-se de um clássico, com frases de efeito muito bem sacadas como “Agora ficou mal/de tanto mudar continua igual”. Além disso, tem guitarras poderosas e uma base baixo + bateria pesadíssima e bastante coesa. Sonzeira.

Com o disco na praça, a banda viveu uma fase intensa de concertos, apesar da falta de estrutura e do esquema amador de “produção”. A maior parte dos shows eram em festivais e com abertura de grupos estrangeiros. Em 1979 , abriram para o Eddie & The Hot Rods, no primeiro show de uma banda punk internacional em solo português, realizado em Lisboa.

Um pouco antes dessa apresentação haviam lançado o segundo compacto, com as faixas Eu não sei e (Dedicada) a quem nos rouba.

A postura altamente contestadora e o comportamento agressivo da banda e de seus seguidores criaram muitos problemas ao AD’R. Já no início de 80, o grupo sofre sua primeira mudança na formação, com a saída de Alfredo Pereira, substituído por Carlos Cabral.

Um pouco mais tarde, o AD’R ganha um quinto elemento, o guitarrista e vocalista Alberto Barradas. Já com uma postura mais new wave e a vislumbrar novos horizontes musicais, deixam de ser Aqui d’El Rock e adotam o nome Mau-Mau. Era o fim de uma lenda, ficou a porrada no sistema português, violentado por mais de 50 anos…

Ex-integrantes do grupo mantêm um site com mais informações sobre o “historial” do Aqui d”El Rock. Acesse aqui http://www.aquidelrock.besaba.com

Baixe aqui os imperdíveis compactos do Aqui d’El Rock

Curiosidades

  • Como a grana era curta, Zé Serra e Fernando sofreram um bocado para adquirir seus instrumentos. O baixista teria construído ele próprio sua primeira guitarra. Já o baterista montou seu equipamento peça a peça, conforme ao dinheiro ia entrando…. O P.A. de voz foi comprado usado e servia também como amplificador. Uma realidade que as primeiras bandas punks do Brasil conheceram muito bem.
  • Em alguns festivais a banda era obrigada a repetir o repertório mais de uma vez, já que havia exigência de que ficassem no palco por um tempo mínimo e o set deles era curtíssimo.
  • Escalados para tocar na abertura de um show do Uriah Heep, tiveram a apresentação cancelada pois o vocalista da banda de hard rock reclamara que o ensaio do AD’R lhe provocara uma forte dor de cabeça. Uma flor o cara, pelo jeito.
  • A primeira audição do AD’R no Brasil, ocorreu em 1980, quando Kid Vinyl tocou Há que violentar o sistema em seu programa de rádio. Como alguns punks tinham o costume de gravar o programa, inclusive eu, o petardo foi bastante ouvido embora seja provável que, na época, apenas uma cópia do disco tenha atravessado o Atlântico.
  • Como Mau-Mau, lançaram apenas um compacto (Xangai/Vietsoul).

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