The Saints: a endemoniada raiz australiana do punk rock

Apesar de ingleses e estadunidenses reivindicarem (com razão) a condição de berço do punk rock, este acabou tornando-se um fenômeno sem pátria que desenvolveu-se lenta e simultaneamente em diversos países. E depois que chamou a atenção da juventude e “explodiu” na Inglaterra e nos EUA, entre os anos de 1976 e 77, espalhou-se como vírus pelo planeta.

Na época, a indústria fonográfica, “dona” da música, soube usar estratégias midiáticas eficientes para rotular, embalar e vender um “novo rock” que saíra nos subúrbios e nas garagens das grandes cidades do mundo todo. Um rock destituído de virtuosismo, que começou a ser gerado nos anos 60, com bandas como Stooges, MC5 e Velvet Underground. O The Saints é o maior exemplo dessa teoria (mais uma entre tantas o surgimento do punk).

Deslocados

A história da banda começa em 1972, em Brisbane, Austrália, quando Chris Bailey e Ed Kuepper se conheceram na escola. Eram os únicos cabeludos. Como é de praxe quando dois moleques roqueiros se conhecem, logo resolveram montar uma banda.

the saints promo

O primeiro nome que escolheram foi Kid Galahad & The Eternals, com Bailey nos vocais, Kuepper na guitarra e Ivor Hay ao piano. Tocavam apenas covers e fizeram pouquíssimas apresentações. No início de 1974, adotaram o nome The Saints (inspirados em nomes de gangues e bandas de garagem dos aos 60) e começaram a compor.

Nessa época, Hay passou a ser baixista. As baquetas ficaram por conta de Laurie “Mistery” Cuff, que logo seria substituída por Jeffery Wegener. Este também não ficou muito tempo e Hay assumiu as baquetas para a entrada do baixista Doug Balmanno, que também não demorou a debandar.

A essa altura, o grupo já organizava shows por conta própria e criara uma reputação, ainda que não fosse das melhores. Tinham poucos seguidores e eram considerados muito barulhentos, primitivos. Ainda em 1975, Wegener deixa o grupo e Kym Bradshaw torna-se o novo baixista. Foi com essa formação que o The Saints ganharia fama (fortuna, não!).

Enviaram demo tapes para diversas gravadoras australianas (na verdade, não eram muitas as opções). A maioria sequer deu resposta. A saída encontrada (antes de todo esse papo sobre do it yourself) foi gravar um compacto por conta própria. Assim, alugaram duas horas em um estúdio chamado Bruce Windows e registraram os clássicos I’m Stranded e No time, dois petardos ainda atualíssimos.

imstranded_7_aus_aside_400O disco saiu com selo da própria banda, o Fatal Records, e obviamente foi ignorado pela mídia australiana. A indiferença local incentivou Bailey e Kuepper a enviarem diversas cópias do compacto para críticos musicais dos EUA e da Inglaterra. Era o meio do ano de 1976 e o hemisfério norte começava a esquentar com um tal de punk rock.

Os felizardos que receberam as cópias ficaram de cara. As críticas favoráveis fizeram com que “olheiros” da EMI na Inglaterra ordenassem à filial australiana que os contratassem imediatamente. Assim, já no início de 77, gravam o LP (I’m) Stranded, um dos melhores discos punk de todos os tempos.

Deslocados 2

A mudança para a Inglaterra foi inevitável. E os problemas também. Apesar de agradarem musicalmente, a crítica detestou o visual e o comportamento da banda. Não se pareciam com punks. Pode-se dizer que foram vítimas de um patrulhamento que ditava quem e o que era ou não punk. Mas eles pouco ligavam para as críticas, queriam apenas tocar um som, fazer shows e gravar discos.

Assim, tocaram a barca e fizeram uma turnê, ao lado dos Ramones e dos Talking Heads. E continuaram a ser os mesmos caras que eram em Brisbane. Recusaram-se a adotar o visual “sugerido” pela EMI (que já perdera os Pistols e tentava compreender e faturar em cima da onda punk).

saintsita.jpegO seja, não quiseram cortar e arrepiar os cabelos. Pelo contrário, Bailey deixou-os mais longos. Apesar de terem alcançado fama e saído de Brisbane graças à explosão punk, à qual tiveram seu nome associado, o The Saints não conseguia se ligar ao “movimento”. Talvez por verem que aquilo tudo era apenas uma grande jogada capitalista. Bailey declarou publicamente que, para ele, Generation X e Johnny Rotten, eram fabricados, nada autênticos. Paralelamente, críticos que desconheciam a história da banda taxavam o The Saints como “cópia” do Ramones.

O segundo disco, Eternally Yours, gravado com mais tempo e melhor produzido, também não foi bem recebido pelos patrulheiros de plantão. Em uma das faixas, Lost and found, Bailey já dava uma resposta antecipada (tradução livre):

Ninguém vai me dizer o que tenho que fazer
Já ouvi todas as mentiras, me prometeram o mundo
Nenhum homem de negócios vai me usar ou enganar
Porque eu não sou um marionete para aumentar seu capital

Com uma sonoridade mais melódica, ainda que se mantivesse o peso e a agressividade, associada a elementos novos, como saxofones, harmônicas e cordas clássicas, Eternally Yours não foi instantaneamente compreendido. O LP, que não muito depois ganharia o rótulo de “clássico punk”, acabou sendo um fracasso de vendas e a banda começou a implodir.

O baixista Kym Bradshaw já havia saído e dera lugar a Alasdair Ward, antes mesmo das gravações do segundo álbum. Mas eles ainda tinham um contrato a cumprir e podiam fazer uma nova tentativa, um terceiro LP. Antes de entrarem em estúdio, Bailey chegou a deixar o grupo, mas retornou.

O grupo não se entendia sobre os caminhos que iriam seguir. O único consenso era se desvincular da cena punk. Desse modo, Prehistoric Sounds, recheado de baladas, chegou às lojas. Um bom disco de rock e R&B, que afastou a maioria dos fãs antigos, mas não teve força para conquistar novos seguidores.

As discussões internas continuaram. Kuepper buscava cada vez mais um som próximo do jazz-rock; Bailey , por sua vez, queria aprofundar-se no terreno do pop e das baladas. Enquanto isso, as fracas vendas desencorajaram a EMI a renovar o contrato. Era o fim da parceria e do The Saints original.

Desde então, Bailey tem lançado diversos discos com o nome da banda, sempre com formações diferentes. O Saints ainda existe, mas já não passam de fantasmas perto do vigor inicial.

(I’m) Stranded

Curiosidades

  • Spiral Scratch, do Buzzcocks, é muitas vezes apontado como o primeiro single punk 100% independente, mas I’m Stranded não só foi gravado, como lançado, alguns meses antes.
  • Boa parte das músicas do primeiro LP – e até algumas do segundo – foram compostas em 1974 e estão no CD The most primitive band in the world, que reúne diversas demos da banda gravadas naquela época.
  • O LP (I’m) Stranded foi gravado em apenas dois dias.
  • Depois de sair do The Saints, o baixista Kym Bradshaw foi um dos fundadores do Small Hours, grupo que chegou a colocar alguns compactos nas paradas inglesas.
  • Após o (teórico) fim do The Saints, Ed Kuepper voltou para a Oceania e formou o Laughing Clowns. Depois, criou o The Aints, em clara alusão à antiga banda, com uma sonoridade bem parecida – e, nos shows, tocava músicas antigas do The Saints. Atualmente é um dos guitarristas mais respeitados na Austrália, tendo gravado diversos discos solos, o mais recente, Lost Cities, com uma pegada blues e muito elogiado.
  • Ivor Hay teve uma rápida passagem pelo Damned e depois formou o Tank.
  • Chris Bailey radicou-se em Amsterdam, onde reformou o The Saints. No total, o grupo tem 14 álbuns, o último, King of The Sun, lançado em 2012. Grande disco, mas já sem qualquer traço do original e genial The Saints.

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